Vazio

Há noite, perante o infinito de um céu estrelado, sempre vem acompanhado de uma náusea quase à beira do vómito, nessa angústia infinita de me saber tão pequeno no vasto Universo. Como acreditar que sejamos especiais? Talvez faça sentido neste caldeirão gigantesco, o acaso ter feito das suas e parido esta espécie, que temporariamente habita aqui, por aqui, até que...

Já não sei onde fica a cama,
Que voz me chama,
Que paixão me inflama...
Tenho a cabeça cheia de ecos,
Tonto da dança dos bonecos,
Cansado de andar aos tombos.
Ou só, tão só, sentado no jardim,
A atirar pão duro aos pombos,
Que voam para mim!

Inquietude que me alcança,
Nesta vida feita dança,
Em que dançamos sozinhos.
Múltiplos caminhos,
Que levam a lugar nenhum.
E às vezes pensávamos ser dois
Sendo que afinal, era só um.
Quarto de espelhos onde me confundo,
Depois do cansaço e da solidão,
Desejo de um sono profundo.
Tranquilo, aquietado coração,
Que mais nenhuma paixão,
Vem agora perturbar.
E se me ouvires chamar,
É apenas um eco perdido,
Que te há-de haver confundido!
E se ao andar assim sereno, ainda sorrio;
Repara no meu olhar: é como eu, vazio...


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Semente

Parece que a vida persiste em qualquer lugar por mais agreste! A vida parece assim dotada de uma persistência louca de uma resiliência feita de milhões de anos! Mas não sei se vale a pena tanta persistência e tanta resiliência. Nem sei mesmo se a vida não foi apenas uma questão de acaso, de moléculas que sem terem nada para fazer, quisessem dançar e ao caírem de cansaço espreguiçou-se a vida. Raios partam mais à dança! E se alguém te inventou...

Ah agora sei que não sou.
Em mim mora a hipocrisia;
E eu não sei para onde vou,
Esta escolha, não a queria!

Mas não importa o meu querer!
Todos nos querem por trela,
Desejam mando, nosso obedecer,
E que ainda achemos a vida bela!

Não sei que dizer,
Sinto-me vazio,
Talvez morrer,
Seja prémio!

Que merda me tornei,
Como aqui vim parar?
Ao certo, nem eu o sei ,
Mas sinto-me a sufocar!

Coisas malditas que nos apertam,
Como torquezes nos nós dos dedos,
Que torturas a mais se suportam,
Ignaro resultado dos meus medos!

Oh eu sei, não sou soldado!
Sinto-me de tudo despojado,
Do amor, dos belos ideais,
Tudo é já demais!

Cansei-me, farto de ser,
Desta permanente vida errada!
Já nenhuma vontade de viver,
Só a de ser semente e enterrada!


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As palavras estão gastas

Já não sei dizer, porque tudo o que digo, parecem estilhaços. Entram-te na carne, mas quem sofre sou eu. As palavras são o pretexto, para dizer que me amaste. E pelas mesmas palavras vais embora. Ficam as palavras que usamos. Gastaram-se. Podes enterrar tudo...

As palavras estão gastas...
Como o comboio que sai da estação.
Como esta pedra que se esboroa nos meu dedos.
Como a água que passou debaixo da ponte.

As palavras estão gastas!
Como a paz que cede,ao medo.
Como a flor que cresce na fenda do penedo.
Como o meu ar cansado...

As palavras estão gastas!
Nos lábios emudecidos.
Na mão que acena.
No lenço branco que se agita!

As palavras estão gastas!
No cinzel sem força.
No resto do teu nome.
Jazem neste coração calado.

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Cacos Partidos

Não sei se a vida conserva algum sentido. Para mim ela aconteceu de um acaso fortuito, nunca teve, nem terá sentido. A vida é apenas uma lágrima do Universo que morre de tédio. Mas ele permanece e somos nós que vamos morrendo, pouco a pouco, nos nossos sonhos, nas utopias e nos delírios. E no amor, que é apenas outra coisa tão sem sentido quanto a própria vida... O meu coração está partido e deixou escapar o que tinha dentro; estou vazio...

Coração de cacos partidos...
Dor em aumento exponencial.
Mundo do caos e da entropia.

Velhos caminhos percorridos,
Numa senda que é sempre de mal;
Onde o futuro é uma mera utopia!

Perdoai-me as palavras com que menti!
Os sonhos que embora, também meus,
Eram apenas o meu espelho, sonhos que vi.

Nem Deus, nem amor, nem antes, nem depois;
A morte é Toda-Poderosa, todos somos seus!
Perdoai-me ter-vos feito sonhar libertação!

Doi-me no peito este fraco coração...
Já não acredito em sonhos, nem na eternidade,
Sou sem esperança, nenhuma veleidade!


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Desistir

Já tiveste alguma vez a sensação de que estás a mais? Que estás sempre a mais? E que não devias estar? E foi tão aguda a sensação que desejaste partir e mesmo assim os teus pés não se mexeram. E pediste que te deixassem. E deixaram... Deixando esse peito angustiantemente vazio.



Gostava de chorar por ela.
Mas não consigo.
Preciso de coração para chorar,
E ela arrancou-me do peito.
E deixou-o ao desabrigo,
Onde está a nevar!

Aos poucos já não bate,
Ela bateu.
Assim me mate,
O que antes em mim viveu.

Agora os meus passos,
Não precisam de nenhum caminho.
Foram sonhos, desenhos e traços,
Que me deixaram sozinho.

Podes largar-me a mão agora,
E deixar-me aqui à chuva.
O que espero, já não demora,
E não faz diferença,
A minha crença!
Ou se estou encharcado,
Parado;
Nesta maldita humidade.
A verdade,
É que desisti da felicidade…

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O caminho da Rosa

Oh sim, eu sei! A paixão prometida em cada rosa, trocada por dezenas de espinhos. Não sei se há música para isso, mas se houver, deve ser triste como o mar na maré vazia. Que te importa a rosa, se a agarras onde os espinhos estão e apertas com força e aprendeste a gostar dessa dor, que te lembra o seu perfume? Sabes... És doido. Apenas doido. Ou então não existes. (Era melhor.)

O caminho da Rosa

Sigo com pés de Cristo,
Este caminho da rosa;
Em vermelho e dor,
Acreditando no amor.

Entre o futuro e o mal,
Apenas cristalino sal,
Que cai como orvalho,
Nas pétalas onde falho.

Cambaleio na fragrância,
Qual ébrio sem paciência.
Àlcool de paixão rubra,
Que até ao chão me curva.

Caminho com os pés do Cristo,
Sobre as roseiras inteiras.
Tornei-me nisto, desisto!
Já não acredito em nada.



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Escuridão


Todos necessitamos de uma luz num lugar escuro, para não sufocarmos. Para não ficarmos com a sensação de que fomos esquecidos. Para não termos a certeza de termos sido enterrados em vida. E que luz é essa? Primeiro tem de acender em nós. Depois temos de a levar ao outro. O outro tem de estar disposto a ficar connosco nessa luz. Deve ser isso a que chamam amizade...


Às vezes preciso da escuridão,
Tactear com a minha mão;
Esse negro vazio,
Onde me rio;
Espantando os meus fantasmas!
Coração em chamas,
E sim esta espiral de luz,
Centro do mundo onde me pus!
E agora vês que brilho?
De luz é o meu trilho;
Queres seguir comigo?
Dá-me a mão,
Na escuridão;
Vem ser meu amigo...



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Destruidor de Montanhas


Não te preocupes, que está tudo bem! A maior parte das vezes não está. Mas chegamos a tal ponto de negação que até o óbvio deixa de o ser. Há a sensação de um cansaço de quem teve tudo (ou pode ter) e ficou vazio e nada leve. Reparem na expressão "nada leve", porque é um paradoxo. O Destruidor de Montanhas é como Sansão, apenas as destrói para morrer soterrado.


 


Tenho medos...
A força destes dedos;
Destruidores de montanhas!
Coisas estranhas,
Que querendo construir,
Tudo em que toco,
Começa a ruir!
O meu peito,
É tão oco...
Do que fiz,
Nada está feito!
Sou rio a fluir,
Sem nada que o pare!
Estarei ficando louco?
O que não dei,
E devia dar?
Já nada sei…
Pensando ser sábio,
Não passo de um idiota…
Saudoso lábio,
Que o teu espera,
Da tua voz a nota,
Que já não canta!
Silêncio cobrindo,
Esta rota manta.
Jardim lindo,
Sem nenhuma flor;
Secou,
Murchou o amor!
Talvez fosse este sal,
Que cai sem ser por mal,
Talvez seja da idade,
Ou a simples gravidade.
Eu sei que comigo,
É mais fácil cair,
Ser só amigo,
Braços que não servem de abrigo.
Deixa-me partir, veleiro amaldiçoado;
Pelo tempo sempre atraiçoado;
Sempre em contra-ciclo, dissonante,
Sempre amigo, nunca amante!
Sou pragana ao vento,
E a minha vida é tormento,
Talvez não saiba amar!
E devo afogar,
Nas ondas desse mar,
Que me escorre pela face...
Deixa que o tempo passe.
Um dia nada importará!
E se o teu filho junto à minha campa perguntar:
-- Quem aqui está?
Sai dali depressa, a correr,
Por favor, apenas vai!
Pois podias tentar-te a dizer:
“Alguém que queria ser teu pai!”
  

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Esgotamento



Dou conta de um cansaço que me esgota. Um imenso cansaço que me inunda o peito e o afoga. Não é o mar, mas é um. E neste a correnteza dos dias é a torrente que me cansa, agora que esbracejo para me manter à tona dos dias. E esgotei-me. Sou um barco vazio e sem remos, levado na correnteza...

Sei de esperanças que duraram menos de uma vida,
E por isso não foram a última coisa a morrer.
Sei de amores eternos nunca consumados,
Esgotados no frenesim dos dias,
Em circunstâncias agrestes.
Sei de personalidades nunca acabadas,
Construções sempre em ruínas,
Campos de pedras, um deserto.
Hoje é o fim de todos os caminhos;
Onde o peso de tudo o que não foi,
Não nos deixa avançar mais;
Esgotada que foi a força, a esperança e o amor.






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Covarde


A velha história mil vezes repetida: Pensas ser uma coisa e não és, és outra bem diferente! Pensavas ser um leão forte e poderoso, mas afinal tinhas mais uma característica: eras covarde. Podias sentir medo e dominá-lo, transformá-lo numa fúria, em raiva louca, mas preferes fugir a lutar. Devias morrer com glória ao invés de viver com vergonha! "Shame on you!"


Em raiva a fúria louca;
Que aquietei, domestiquei!
Ficou assim, coisa pouca,
Quando? Já nem eu sei!

E o fogo amornou…
Carvão mortiço, ficou.
E esta espécie de judeu,
Sem holocausto, sou eu!

Tremem os meus dedos,
Por causa dos meus medos.
Mas não faças alarde…
Eu sei que sou covarde!






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