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Pássaro cansado

Oh as rotinas vazias dos dias iguais! O mundo que persiste no seu caminho inescusável, na sua senda suicida! Por quanto mais dias de um voo feito de urgência e não do prazer de voar? Confessa que cansa e estás cansado. Mesmo que ainda sobre a esperança...



Cansado, batendo a asa,
Regressa o pássaro a casa!
Pousando no galho conhecido,
Por este dia, dá-se por vencido.
E o sol declina no horizonte em fogo,
Pássaro só, aqui ainda e mais logo...

Na noite não se trina.
Vida que se amofina!
Existir é só cansaço;
Ser apanhado nalgum laço.
E se restar alguma sorte,
Ser rápida a morte!


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Espinhos

A fonte de todas as dores, é o amor! Por amor dizem as Escrituras, nosso pai Adão, escolheu morrer junto com Eva, do que a perspectiva de viver sem ela! E eis que em Adão morremos todos! Acho que Deus ficou ciumento de que o seu filho preferisse a criação ao Criador! Nem se apercebeu, que Adão o honrava ao amar assim o trabalho das suas mãos. Mas que às vezes dói...


Vesti-me de espinhos de roseira
Para ver se te esquecia
De alguma maneira
Lembrar-te todo o dia
Era coisa que eu não queria
Mas o pensamento é recorrente
Mesmo que arduamente tente
É para ti que corre e voa
Mesmo que ande à toa
É pássaro livre e louco
Bater as asas, para ir ter contigo
Acha o esforço pouco
(Chama-lhe um figo!)
Mas em mim só fica a dor
E mesmo que como abelha voe assim
De jardim em jardim, de flor em flor
A dor acaba toda pra mim
Roseira que me aperta
Coração em fonte aberta
Que para ti se escoa
Anjo louco que para ti voa!


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PÁSSARO À CHUVA


Para onde vão todos os pássaros quando chove? Para que recanto secreto do mundo se recolhem? Em que árvore de frondosa e densa folhagem buscam abrigo? Por voar, penso que sou pássaro...Mas desconheço o lugar onde se abrigam... E tu? Também és pássaro à procura de abrigo? Ou o frio tolheu-te e já perdeste a vontade de voar? Se não queres mais voar, para que precisas das asas?



Sou um pássaro à chuva tocada a vento
Cabisbaixo espero que passe este tempo
Encontrar uma nesga uma aberta
Que esta vida é um sufoco que aperta!

Está frio porque é inverno ao que parece
Mas esquecem que todos os anos é assim
E aos poucos o fruto da alegria fenece
Nesta chuva que me magoa só a mim

Pássaro quieto que não pode voar
Sonhos todos idos no vento frio
Vontade primaveril de cantar
Esgar de saudade, com que sorrio

Deixa-me ficar mudo e quieto
Até a tempestade passar
Deixa que o coração irrequieto
Desaprenda de palpitar

No meio do bando passo por vez
Desânimo que o passar do tempo fez
E não importa já se faz frio e chove
Porque ao meu voar, já nada o move!


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Mãos

 
Mãos, delicado e forte instrumento no fim dos braços. Alcança, agarra, segura, toca. O que fazes com as tuas mãos? O que alcaçam elas? O que agarras? Quem a segura? Em quem tocas? Acaricias... Ou as tuas mãos estão despidas e vazias? O tempo escapa-se por entre os dedos como areia caindo... E ela vai-se...
...escrever o poema...
Seguro os meus dias
Nas minhas mãos vazias
Não são mais meus
Agora todos são teus

Diz-me se os queres
Irei por onde quiseres
Senão lança-os no fundo
Esquecidos do mundo

Sou filho de nenhum lugar
Pássaro, feito para voar
Pés presos no chão
Na vida, em contra-mão

Vem o meu nome chamar
Estender a tua mão tão doce
Quem dera que eu não fosse
Querer ser tudo por te amar

Sou em tudo contradição
Monte sereno e vulcão
Ando com pés de chumbo
Aqui aguardo o fim do mundo!

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Pedro Abrunhosa é um grande poeta e tudo o que é grande inspira!
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Folhas


Oh eu sei... Caiem as folhas no Outono, cansadas de esperar por quem não prometeu. E vai-se o Sol amornecendo... Tem de ser, é o que se pensa! Faz parte do ciclo das chegadas e partidas. Das promessas e do que foi prometido. E não se falha porque se quer, mas tem de ser, que é a lei natural. E como nada se pode fazer, aceita-se. E arde no peito, nas saudades que ficam de um tempo feliz, primaveril. Talvez seja por isso que as folhas de outono são vermelhas... e caiem, caiem, caiem até despir a árvore.

Deixa-me seguir sózinho...
...e ainda outra vez, mesmo que mais veloz, mas só!
Ou talvez nem tanto...
Isso! Uma canção...




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