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Pássaro cansado

Oh as rotinas vazias dos dias iguais! O mundo que persiste no seu caminho inescusável, na sua senda suicida! Por quanto mais dias de um voo feito de urgência e não do prazer de voar? Confessa que cansa e estás cansado. Mesmo que ainda sobre a esperança...



Cansado, batendo a asa,
Regressa o pássaro a casa!
Pousando no galho conhecido,
Por este dia, dá-se por vencido.
E o sol declina no horizonte em fogo,
Pássaro só, aqui ainda e mais logo...

Na noite não se trina.
Vida que se amofina!
Existir é só cansaço;
Ser apanhado nalgum laço.
E se restar alguma sorte,
Ser rápida a morte!


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Uma morte misericordiosa


Chegar ao fim da vida para encontrar nesse fim, sofrimento e a sensação de que a vida não vale a pena, é o exemplo mais claro que não existe nenhum Deus amoroso com vontade de nos salvar. É como o Pai Natal. E se Deus se condena, então agora em seu lugar cabe-nos assumir a responsabilidade por nos salvarmos. Está nas nossas mãos. Pois... ocorreu-me o mesmo: Com a actual humanidade, é sem esperança.


Sei que me amas e por isso,
Quero fazer-te um pedido:
Quando eu enlouquecer,
Porque o mundo,
Se tornou um lugar de desespero.
E eu na minha covardia,
Apenas conseguir ficar tolhido e a chorar…
Toma tu a coragem que não tenho,
E mata-me, uma morte por amor!

Oh dá-me uma doce morte,
Que estou farto deste mundo,
Entre a estupidez e barbárie!
Onde a injustiça, a desigualdade, a pobreza,
É como um cancro que se alastra,
Até me causar um sofrimento insuportável!
E não consigo parar esta dor que cresce,
E anseio o alívio vindo nas tuas mãos!
Mata-me sem remorsos, uma morte misericordiosa…


Quando aqueles que chegam ao fim,
Têm de escolher entra a comida ou a saúde.
E todos entoam loas ao capitalismo,
Levando à morte sempre dos mesmos:
Os no fundo da cadeia, despidos até de dignidade!
E que numa purga darwiniana, eliminam-se os fracos,
A quem a única escolha que se lhes dá,
É a de morrerem depressa!
Não sou desses! Não quero ser desses!

E sou demasiado covarde para dar um tiro na cabeça.
Resultado desta sensação de impotência de estar só.
Tenho de deixar à solta esses zombies, anjos da morte,
Disfarçados de piedosas intenções!
Não, eu não sou desta espécie de humanidade bastarda,
Que prefere o caminho mais fácil: enterrar a salvar!
Mata-me! Mata-me por favor, que me enganei ao nascer!




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Cacos Partidos

Não sei se a vida conserva algum sentido. Para mim ela aconteceu de um acaso fortuito, nunca teve, nem terá sentido. A vida é apenas uma lágrima do Universo que morre de tédio. Mas ele permanece e somos nós que vamos morrendo, pouco a pouco, nos nossos sonhos, nas utopias e nos delírios. E no amor, que é apenas outra coisa tão sem sentido quanto a própria vida... O meu coração está partido e deixou escapar o que tinha dentro; estou vazio...

Coração de cacos partidos...
Dor em aumento exponencial.
Mundo do caos e da entropia.

Velhos caminhos percorridos,
Numa senda que é sempre de mal;
Onde o futuro é uma mera utopia!

Perdoai-me as palavras com que menti!
Os sonhos que embora, também meus,
Eram apenas o meu espelho, sonhos que vi.

Nem Deus, nem amor, nem antes, nem depois;
A morte é Toda-Poderosa, todos somos seus!
Perdoai-me ter-vos feito sonhar libertação!

Doi-me no peito este fraco coração...
Já não acredito em sonhos, nem na eternidade,
Sou sem esperança, nenhuma veleidade!


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Lobos


Oh a noite! Aquele medo de deitar a cabeça no travesseiro porque me assaltam todos os lobos cinzentos, que se aconchegam ao meu corpo. Ah o frio da noite! O terrível frio de um solitário. Porque vem a noite? E porque vêm os lobos cinzentos ao meu encontro? Porque não me encontro, assim cansado e sereno para na noite apenas dormir? E porque chove? Diz-me porque chove...

O momento que se congela,
Para sempre eterno instante;
Memória que tenho dela,
Efémera, mesmo que importante!

Matilhas de lobos cinzentos,
Que me querem trincar e roer.
Aproximam-se cautelosos, lentos,
Na esperança de nos ver morrer!

À noite é difícil não chorar,
Por tudo o que tive de deixar.
Sendo tudo reduzido a cinza,
Até a esperança da sua vinda!

Oh esta dor aguda e infinita,
Tê-la conhecido bonita;
E ter de assim partir,
Quando a queria seguir!

Não é minha a boa sorte!
E agora que partiu a alegria,
Que o seu sorriso me trazia,
Deixa que me leve a morte!




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Grunhido



Meu amigo, não fiques triste. Não vale mesmo a pena. A morte traz a paz. Uma paz eterna, que mesmo coisa sem ter fim, ou o lugar onde todos ficamos reduzidos à importância que temos, Não é muito grande essa importância, num Universo tão vasto. Demasiado vasto, tão eterno, para a nossa pequenez. É só a nossa cabeça que nos quer fazer sentir importantes, para nos manter de pé... Mas a gravidade desta machina mundi obriga-nos sempre a cair...sempre a cair...


Agora que em mim,
A fonte da seiva secou;
A árvore chega ao fim,
E a ave negra pousou...

Quem espera sentado,
Dessa margem, desse lado,
Por onde o rio ainda corre;
Contrário a este, onde já morre.

É serena e calma a margem,
Onde galhos findam viagem,
E peixes buscam abrigo.
Donde aceno um adeus amigo!

Já ao dia acho-o escuro;
E os tímpanos, boa espessura!
Não consigo saltar o muro;
Desta doença não há cura!

Mas faz-me um último favor,
Dá-me abraço, suave calor,
Em silêncio; no término da viagem;
A este teu velho conhecido!
porque a linguagem,
ainda é só grunhido!


Metal Português

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A longa noite



Não sei se já te interrogaste sobre o sentido da vida. Talvez ainda seja cedo para te perguntares essas coisas. Usufrui enquanto tens tempo, porque possivelmente terás tempo para te interrogar sobre isso mais tarde. Em boa verdade, acho que ninguém sabe qual o sentido da vida. Mesmo os convictos. Talvez só a morte tenha sentido, já que arrasta no seu manto longo todos os que já viveram. Já pensaste nisso? Que afinal a única coisa sem sentido, seja a vida?

Sem pressa, nem vagar, a longa noite avança.
A eternidade é toda dela sem descanso.
E a humanidade está perdida nesta dança.
Segue qual rebanho sem pensar – vai manso!

E a existência é só isto e nada mais?
O intervalo entre o donde vieste e para onde vais?
Talvez a natureza seja perversa e corra,
Maldade sua, fazer-me nascer para que morra…

A vida é para sempre uma busca de perfeição.
Mas nasceste imperfeito, tens de ir embora!
Dos teus erros, outros melhores virão,
E a morte essa, tem pressa, nunca se demora…





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Girar


Dizem que esta roda onde giramos feito loucos, a tentar encontrar-lhe sentido, é o círculo da vida. Mas deve ser um círculo inacabado, porque no fim não recomeça. Ou então sou eu que tonto de girar, me esqueci das vezes que já findei e recomecei. Não importa. As coisas colossais acabam sempre por vencer a nossa vontade...



Há um cansaço
Madraço
Em meus braços
Laços
Que já não prendem
Mãos vazias segurando nada
Coisas que se subentendem
Nesta vida tão danada
Queria uma coisa linda
Sempre bem-vinda
Alguma alegria
Em cada dia
Uma canção
Ou uma dança
Desabrochar de paixão
Ou uma esperança
Mas tudo o que me sobra
É uma inacabada obra
Este cansaço que me dobra
Até me vergar
À vontade das coisas colossais
Que fazem girar o mundo
Até no fundo,
Eu não girar mais…



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Niilismo





Às vezes os pés pesam-te como chumbo e queres ficar onde estás, não ir para nenhum lugar? E depois visitam-te as obrigações quotidianas, as responsabilidades que fomos acumulando com os anos? Uma espécie de bagagem, feita de memórias. Para alguns a medida do seu sucesso, para outros a medida da sua estagnação, dos sonhos que ficaram onde bate a rebentação, ou na espuma das ondas... Como diz o imortal Freddy Mercury, nessa imortal canção dos QUEEN, The Show Must Go On!


Quero lá saber
Tudo tem de morrer
Ou será que não?
Será eterna a paixão?
Areia que nos escapa nos dedos
Vento que nos despenteia o cabelo
E sim através de todos os medos
O amor - oh! o amor! - Ainda é belo!

Nestes ocasos quotidianos
Que alimentam o mar de enganos
Prosseguimos fingindo
E um dia tudo é findo
E não fingimos mais
Coisas tais
Que apagam o sentido
Que alguma vez tenha tido

A pantomina deve continuar
O truque é passar os genes adiante
Não importa nem amar
Basta ser amante
E haver um acidente
No mundo nova gente
O plano não é elaborado
É um destino, espécie de fado

Estou cansado
Pés que arrasto
Somos só passado
Vacas ruminantes
Em algum verde pasto
Passando por seres pensantes
Acabamos no mesmo talho
E às vezes fico sem resposta
À velha pergunta que me é posta:
-- Afinal o que é que eu valho?



Que as fortes músicas possam compensar o fraco poema.
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