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A NEGRA SOMBRA

Todas as tempestades acabam deixando de novo a luz brilhar, mesmo que a princípio tímida, hesitante, como se viesse a medo. Mas acaba por vir. A luz carrega nas suas asas a esperança, abre-nos os olhos, mesmo que à força de um despertar brusco. E a tempestade reforçou a nossa força, mesmo quando nos deixa mais sós.

Oh A sorrateira sombra,
Trazendo a noite negra,
Macia como veludo,
Um escuro que rouba tudo!
Rio que de profundo enegreceu,
Não corre mais, morreu.
Mas hoje não quero saber.
Hoje não é bom dia para morrer!
Estou cansado e quero dormir.
O sol brilha, a sombra vai a fugir.
Serei pássaro e hei-de voar,
A sombra correndo atrás!
O que a vontade faz,

Que se me há-de alcançar,
Terá de se esforçar,
Terá de se matar!




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Semente

Parece que a vida persiste em qualquer lugar por mais agreste! A vida parece assim dotada de uma persistência louca de uma resiliência feita de milhões de anos! Mas não sei se vale a pena tanta persistência e tanta resiliência. Nem sei mesmo se a vida não foi apenas uma questão de acaso, de moléculas que sem terem nada para fazer, quisessem dançar e ao caírem de cansaço espreguiçou-se a vida. Raios partam mais à dança! E se alguém te inventou...

Ah agora sei que não sou.
Em mim mora a hipocrisia;
E eu não sei para onde vou,
Esta escolha, não a queria!

Mas não importa o meu querer!
Todos nos querem por trela,
Desejam mando, nosso obedecer,
E que ainda achemos a vida bela!

Não sei que dizer,
Sinto-me vazio,
Talvez morrer,
Seja prémio!

Que merda me tornei,
Como aqui vim parar?
Ao certo, nem eu o sei ,
Mas sinto-me a sufocar!

Coisas malditas que nos apertam,
Como torquezes nos nós dos dedos,
Que torturas a mais se suportam,
Ignaro resultado dos meus medos!

Oh eu sei, não sou soldado!
Sinto-me de tudo despojado,
Do amor, dos belos ideais,
Tudo é já demais!

Cansei-me, farto de ser,
Desta permanente vida errada!
Já nenhuma vontade de viver,
Só a de ser semente e enterrada!


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Terceiro Acto






Já pensaste quando vais partir? Dantes doía-me pensar nisso. Imaginar um futuro onde eu não estivesse, parecia-me insuportável. Agora já não. Acho que ficamos tão fartos de tudo, da repetição dos erros, dos nossos e dos outros, até à náusea. De alguma forma partir torna-se um alívio, já não faz mal. Mas nunca sabemos quando esse dia chega... O dia da chuva negra.



Que chuva cai, tão negra,
Excepção que confirma a regra;
Que a chuva é transparente!
Já não sei se é delírio da mente,
Pedaço este de mim, sem cura,
Esta chuva ácida que corrói e me perfura!

Diz-me se não pareço um adamastor?

E se sorrio é uma mentira, artefacto,
Coisa pouca, fingindo não ser dor;
Para revelar tudo no final, terceiro acto,
Desta peça teatral, que é a vida,
Cena final, sempre perdida!


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