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POETA TRISTE


Que importa o dom? Há dons que são como maldições e mais valia não os ter. Às vezes é como se fosse uma antena. Uma antena a absorver todas as vibrações do mundo, o sentir o que se transforma em sentimentos. E o dom apenas te deixa sintonizar essa música. Essa música que toca sempre triste...



Ai quem dera que o poeta triste,
Encontrasse a alegria.
Quão diferente seria,
A sua poesia,
Que apenas na tristeza insiste!

Quem dera que o poeta triste,
Apanhasse um pouco de sol no rosto!
Mas tu já viste?
Apenas conhece o sol posto!

Oh poeta assim tão triste,
Quem de tal tristeza te inundou?
Que beleza te cegou,
Para quem como tu, assim resiste?
Tanto da alegria se separou!

Oh poeta triste,
Não cegues já!
Olha que a vida não é má
É apenas um chiste!




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Chama


Onde andas que alguém precise chamar por ti? Onde te perdeste, que o céu azul tenha de te descobrir? E no entanto às vezes, andamos escondidos dos outros, porque temos medo do que somos. Coisas estranhas que se constroem, como castelos de nuvens que se desfazem no vento. Não sei quem és, mas se às vezes andaste escondido, devemos ter estado no mesmo lugar...

Devo passar por estes lugares desolados,
Velhos recantos que deviam ser apagados.
Lugares de mágoa e desencanto, onde caio.
Asa derrubada de um velho gaio

E já não sei nem lembro se fui,
Ou o que fui em tempos.
Caí, desmoronei e ruí,
Ao sabor dos ventos!

Visto estas vestes,
Tristeza e frustração,
São as minhas pestes,
A velha maldição!

E não aprendo do passado,
Angustia que me traz enredado,
Nas malhas do tempo ido,
E no fim acabo rendido.

Semblante esmorecido,
Não sei bem o que sou.
Talvez esteja adormecido!
Beija-me, chama-me, que eu vou…



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O Moinho


Sentiste alguma vez que és apenas um grão? Um entre muitos e que não fazes realmente muita diferença? És mais um na roda do moinho que é a vida. E o teu destino é igual aos outros, seres também moído. Não importa para quê ou o porquê, neste moinho velho, que roda e roda, na vela que gira e volta a girar. Não é preciso sentido, apenas que gire...



Nascemos do prazer e da dor
É isso mesmo o amor
Crescemos em sabedoria
No passar de cada dia
Ilusão que demora a passar
Até que no fim
Quase ao chegar
Descobrimos que não é assim...

Descobrimos que a vida
É sómente um longo desmame
Quando está de partida
Não há quem se chame
A doce mãe ausente
O pai que partiu e deixou saudade
E agora se sente
Que a vida é só uma vaidade

Uma caminhada sem sentido
Inglório esforço de chegar
E ficou o oferecido
Esse lugar
O paraíso num abraço
O lugar que chamas casa
O abrigo sob a tua asa
A quimera prometida
Do amor ardente
Sempre perdida
Sempre ausente

Solitário caminho
Cinzenta chegada
Pobre moinho
Que não mói mais nada


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Coração partido...


Acontece... Talvez fosse o excesso de velocidade da paixão louca, em contra-mão! Talvez esse desejo incendiário nunca concretizado, não sei... O cansaço? Uma impaciência feita de frustração, que leva a partir? E ficas assim vazio no cais, sem saber para onde vais a seguir, porque simplesmente não querias ir. E tudo te diz que chegou ao fim...ou não. Talvez nem devesse ter começado, se era para acabar assim. Ou então não é nada, apenas um pesadelo que desaparece ao acordar! Certo mesmo, é que dói essa sensação de coração partido...




O meu coração, ele partiu
Antes de eu me aperceber
Batendo louco, contigo fugiu
Mas não me deixou morrer

Nos teus olhos, foi levado
Nesse azul profundo e limpo
Extasiado, qual pássaro alado
Rumo a um qualquer Olimpo

Que pássaro sou eu,
para voar no teu céu?
A tua mão sacode
Quem me acode?

Estendo as minhas asas, negras essas,
Pensei ser anjo caído, cheio de promessas
Mas pelo meu grasnar, sou apenas corvo
Um tipo só, a mais entre o povo

E tu no teu charme singular
És promessa enorme que não mereço
Sou ave das bruxas, a afugentar
Na minha sina, pereço

Se és mais feliz sem mim,
Então vai, parte assim...
Foi bom ter-te conhecido,
Mesmo que acabe de coração partido!







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