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A Vertigem do Sonho



Um luar, uma luz tépida numa noite de verão, memórias que ficam daquele dia... Mas algures pelo caminho sentimos que nos perdemos. A nossa casa já não é nossa e parece-nos estranha. Não sabemos onde regressar e confundimos os sonhos com a noite e não sabemos se sonhamos acordados ou a dormir. Estamos inexoravelmente perdidos em nós e acabaremos assim, à procura de uma rua qualquer que nos deixe respirar...


Às vezes vou pelas ruas por onde não quero passar,

Mas tenho esta tendência de me atormentar.

Passar outra vez, pelas ruas onde podia ter sido feliz,

Mas é sempre a mesma coisa, nada conseguir por um triz!

E sempre ficar a obra inacabada,

Com o “quase tudo!” a dar em nada!


Às vezes respiro o ar das mesmas ruas,

Nesse ar poluído, onde sonho mulheres nuas!

E onde afinal sempre respiro sozinho,

Mesmo que seja no meio do campo, o caminho!

Ou sopre o vento junto à praia, em nortada

Tempestade em minha mente, um tormento,

Onde respirar faz doer, é um sofrimento!


Às vezes vejo-me a sonhar, quem dera fora a dormir!

Porque aí não ia doer e de manhã acabaria a esquecer.

Ás vezes vou pelas ruas onde não queria ir...

Ás vezes não me importava de ter asas e voar!

Na vertigem do voo, a respiração reter,

Acreditar que sou capaz de ser amado e amar,

Sem ser a dormir, nem no sono a sonhar!


Às vezes já não quero dormir,

Nas ruas por onde me forço a ir!

A ter que sufocar, para não doer,

Deixar de dormir para esquecer,

Parar de respirar no meio da nortada!

Não, não vou por-me a acreditar,

No amor e no amar,

Para mim, já não são nada!


Não quero ir por esse caminho escuro,

Que fica aí depois do verão!

Não espreitar por cima do muro

Do lado do jardim, onde as folhas caem e te abandonei!

Não quero essa rua, esses passos, andar em vão

Porque fiquei assim, nem eu o sei!

Procurei nessas ruas escuras e sufocantes, por mim.

E não me encontrei, deixemos a coisa assim.

Não quero o ar desse caminho que abandono,

O vento que nas minhas asas deixo e reponho,

Para ficar só com a vertigem e sem o sonho!




Foto de Darwin Vegher na Unsplash

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Voando Só





Eu gostaria de ao nascer do sol, nascer também. O peso dos pecados que me atiram para o sono, pela noite, pudessem jazer para sempre na escuridão. E cada manhã fosse uma promessa plena e nova. Quem sabe? Talvez a existência se tornasse mais suportável, porque haveria sempre um recomeço. Se calhar, nem era preciso... Uma redenção seria suficiente!



Não sabia que era pássaro;
Até espreguiçar os braços,
E senti-los macios.
Dei uns passos,
No chão da gaiola;
Passos vazios...
Cordas tangendo,
Na viola!
Sou eu gemendo.
E ela veio abrir...
Ficou ali a olhar,
Para mim,
A sorrir!
À espera de me ver,
Partir,
Voar!
Abri os braços,
Asas esticadas!
Do voo, vi-lhe os traços,
(Nenhum arrepio me bule.)
Um esforço, umas penadas!
Lancei-me em mergulho,
Apanhei bebedeiras de azul!
E esta sensação de euforia,
Embriaguez de alegria,
Tão bom sentir-me assim!
Mas era uma ilusão,
Esse céu todo pra mim!
(Era talvez hiper-ventilação,
Ar limpo, sem nenhum pó.)
E tudo, porque voava só...

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Espinhos

A fonte de todas as dores, é o amor! Por amor dizem as Escrituras, nosso pai Adão, escolheu morrer junto com Eva, do que a perspectiva de viver sem ela! E eis que em Adão morremos todos! Acho que Deus ficou ciumento de que o seu filho preferisse a criação ao Criador! Nem se apercebeu, que Adão o honrava ao amar assim o trabalho das suas mãos. Mas que às vezes dói...


Vesti-me de espinhos de roseira
Para ver se te esquecia
De alguma maneira
Lembrar-te todo o dia
Era coisa que eu não queria
Mas o pensamento é recorrente
Mesmo que arduamente tente
É para ti que corre e voa
Mesmo que ande à toa
É pássaro livre e louco
Bater as asas, para ir ter contigo
Acha o esforço pouco
(Chama-lhe um figo!)
Mas em mim só fica a dor
E mesmo que como abelha voe assim
De jardim em jardim, de flor em flor
A dor acaba toda pra mim
Roseira que me aperta
Coração em fonte aberta
Que para ti se escoa
Anjo louco que para ti voa!


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PÁSSARO À CHUVA


Para onde vão todos os pássaros quando chove? Para que recanto secreto do mundo se recolhem? Em que árvore de frondosa e densa folhagem buscam abrigo? Por voar, penso que sou pássaro...Mas desconheço o lugar onde se abrigam... E tu? Também és pássaro à procura de abrigo? Ou o frio tolheu-te e já perdeste a vontade de voar? Se não queres mais voar, para que precisas das asas?



Sou um pássaro à chuva tocada a vento
Cabisbaixo espero que passe este tempo
Encontrar uma nesga uma aberta
Que esta vida é um sufoco que aperta!

Está frio porque é inverno ao que parece
Mas esquecem que todos os anos é assim
E aos poucos o fruto da alegria fenece
Nesta chuva que me magoa só a mim

Pássaro quieto que não pode voar
Sonhos todos idos no vento frio
Vontade primaveril de cantar
Esgar de saudade, com que sorrio

Deixa-me ficar mudo e quieto
Até a tempestade passar
Deixa que o coração irrequieto
Desaprenda de palpitar

No meio do bando passo por vez
Desânimo que o passar do tempo fez
E não importa já se faz frio e chove
Porque ao meu voar, já nada o move!


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Mãos

 
Mãos, delicado e forte instrumento no fim dos braços. Alcança, agarra, segura, toca. O que fazes com as tuas mãos? O que alcaçam elas? O que agarras? Quem a segura? Em quem tocas? Acaricias... Ou as tuas mãos estão despidas e vazias? O tempo escapa-se por entre os dedos como areia caindo... E ela vai-se...
...escrever o poema...
Seguro os meus dias
Nas minhas mãos vazias
Não são mais meus
Agora todos são teus

Diz-me se os queres
Irei por onde quiseres
Senão lança-os no fundo
Esquecidos do mundo

Sou filho de nenhum lugar
Pássaro, feito para voar
Pés presos no chão
Na vida, em contra-mão

Vem o meu nome chamar
Estender a tua mão tão doce
Quem dera que eu não fosse
Querer ser tudo por te amar

Sou em tudo contradição
Monte sereno e vulcão
Ando com pés de chumbo
Aqui aguardo o fim do mundo!

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Pedro Abrunhosa é um grande poeta e tudo o que é grande inspira!
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Burn!

E quando o fogo da paixão, incendiado pelo amor, te esbraseia a alma? Podes resistir? E se resistes não é para te incenerar? E depois ressurgir qual fénix das suas próprias cinzas. E para quê? Para voltares a arder de novo outra vez, e outra vez ainda...

Todos precisamos de arder!
Outra vez!
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