Covarde


A velha história mil vezes repetida: Pensas ser uma coisa e não és, és outra bem diferente! Pensavas ser um leão forte e poderoso, mas afinal tinhas mais uma característica: eras covarde. Podias sentir medo e dominá-lo, transformá-lo numa fúria, em raiva louca, mas preferes fugir a lutar. Devias morrer com glória ao invés de viver com vergonha! "Shame on you!"


Em raiva a fúria louca;
Que aquietei, domestiquei!
Ficou assim, coisa pouca,
Quando? Já nem eu sei!

E o fogo amornou…
Carvão mortiço, ficou.
E esta espécie de judeu,
Sem holocausto, sou eu!

Tremem os meus dedos,
Por causa dos meus medos.
Mas não faças alarde…
Eu sei que sou covarde!






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Lobos


Oh a noite! Aquele medo de deitar a cabeça no travesseiro porque me assaltam todos os lobos cinzentos, que se aconchegam ao meu corpo. Ah o frio da noite! O terrível frio de um solitário. Porque vem a noite? E porque vêm os lobos cinzentos ao meu encontro? Porque não me encontro, assim cansado e sereno para na noite apenas dormir? E porque chove? Diz-me porque chove...

O momento que se congela,
Para sempre eterno instante;
Memória que tenho dela,
Efémera, mesmo que importante!

Matilhas de lobos cinzentos,
Que me querem trincar e roer.
Aproximam-se cautelosos, lentos,
Na esperança de nos ver morrer!

À noite é difícil não chorar,
Por tudo o que tive de deixar.
Sendo tudo reduzido a cinza,
Até a esperança da sua vinda!

Oh esta dor aguda e infinita,
Tê-la conhecido bonita;
E ter de assim partir,
Quando a queria seguir!

Não é minha a boa sorte!
E agora que partiu a alegria,
Que o seu sorriso me trazia,
Deixa que me leve a morte!




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Grunhido



Meu amigo, não fiques triste. Não vale mesmo a pena. A morte traz a paz. Uma paz eterna, que mesmo coisa sem ter fim, ou o lugar onde todos ficamos reduzidos à importância que temos, Não é muito grande essa importância, num Universo tão vasto. Demasiado vasto, tão eterno, para a nossa pequenez. É só a nossa cabeça que nos quer fazer sentir importantes, para nos manter de pé... Mas a gravidade desta machina mundi obriga-nos sempre a cair...sempre a cair...


Agora que em mim,
A fonte da seiva secou;
A árvore chega ao fim,
E a ave negra pousou...

Quem espera sentado,
Dessa margem, desse lado,
Por onde o rio ainda corre;
Contrário a este, onde já morre.

É serena e calma a margem,
Onde galhos findam viagem,
E peixes buscam abrigo.
Donde aceno um adeus amigo!

Já ao dia acho-o escuro;
E os tímpanos, boa espessura!
Não consigo saltar o muro;
Desta doença não há cura!

Mas faz-me um último favor,
Dá-me abraço, suave calor,
Em silêncio; no término da viagem;
A este teu velho conhecido!
porque a linguagem,
ainda é só grunhido!


Metal Português

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Nada Mais Resta

Sempre chega um momento em que pensamos no que a vida foi, ou ainda é. Dos amores que nos tomaram e daqueles que fomos forçados a deixar, nesta interminável caminhada feita de chegadas e partidas, como antigamente os navios. E chega o dia em que o barco que somos, já não navega mais, submerge. Talvez seja o peso de uma vida cheia...

Lembro-me do cheiro a pinheiro verde,
Do tojo a roçar-me nas pernas.
E do tempo que se escoa e perde,
Ao lembrar as memórias mais ternas.

Sei que me amaste com força nobre!
Fizeste de mim rico e tiveste de ir,
De repente fui apenas só e pobre;
Cansado veleiro, sem vontade de partir!

Nada mais resta. Espero sereno a morte;
nada presta, breve momento. E é tormento;
nem no amor, nem no jogo, tenho sorte.

E sou aquilo em que aos poucos me desfaço.
Paixão que foi contigo; num último abraço.
Ganhei raízes, andar já não consigo...


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A longa noite



Não sei se já te interrogaste sobre o sentido da vida. Talvez ainda seja cedo para te perguntares essas coisas. Usufrui enquanto tens tempo, porque possivelmente terás tempo para te interrogar sobre isso mais tarde. Em boa verdade, acho que ninguém sabe qual o sentido da vida. Mesmo os convictos. Talvez só a morte tenha sentido, já que arrasta no seu manto longo todos os que já viveram. Já pensaste nisso? Que afinal a única coisa sem sentido, seja a vida?

Sem pressa, nem vagar, a longa noite avança.
A eternidade é toda dela sem descanso.
E a humanidade está perdida nesta dança.
Segue qual rebanho sem pensar – vai manso!

E a existência é só isto e nada mais?
O intervalo entre o donde vieste e para onde vais?
Talvez a natureza seja perversa e corra,
Maldade sua, fazer-me nascer para que morra…

A vida é para sempre uma busca de perfeição.
Mas nasceste imperfeito, tens de ir embora!
Dos teus erros, outros melhores virão,
E a morte essa, tem pressa, nunca se demora…





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Pena





Alguns dizem que não querem que por eles tenham pena. Mas a pena é um aconchego, depois que tudo o mais se foi, e se fica vazio. Alguns querem ser amados. Não querem pena. Pois sim... e se não puderem ser amados? Se por algum motivo monstruoso, esse sentimento não os possa alcançar? Ou tão só, sejam as circunstâncias a ditar a impossibilidade? Não sei... Talvez não seja assim tão mau restar alguma coisa, como a pena...quanto mais não seja, para escrever!


Dialética de tensa relação,
Tango dançado a dois.
Parecia intensa paixão,
Mas não foi o que veio depois!
No jogo do empurra,
Algum golpe esmurra;
E um mais duro,
De novo faz erguer o muro.

Que flor nele pode crescer?
Não estará condenada a secar?
E não me consigo erguer...
E no meu peito está a nevar.

O que nos separa,
Não é coisa pequena:
Dissipou-se o amor,
Ficou só pena!



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Pela manhã

Às vezes o ar é mais denso, como um nevoeiro pesado. E respirar custa e entre cada exalação, pensamos se vale a pena o esforço. E de tanta solidão ao redor, pensamos que talvez não valha. Só uma estranha sensatez nos puxa para este lado, nesta margem sempre molhada e triste, onde o sol não brilha.


No peito um frio que assenta como a geada pela manhã.
As mãos ardendo irrequietas, em chama vã.
E na garganta uma rouquidão que rouba a voz;
Poemas por dizer, porque estamos sós.
E os braços são pesados e não agem.
Os olhos vidrados, nalguma miragem...
Porque nem os sonhos acordam pela manhã.
Há vento frio, que adia tudo para amanhã.
Um esboço de um sorriso, parece um esgar!
Alguém sussurra, querendo chamar.
E mais uma vez nenhum afã...
Esfarrapa-se o nevoeiro pela manhã.
Os passos são presos, lentos e pesados.
Ninguém, por nenhum dos lados;
Criatura esfingica, parada no monte.
A coragem não tem fonte;
Nem a liberdade caminho por onde seguir.
Só o medo dá vontade de fugir;
Só o vento soprando em redor,
Traz o perfume da flor.
E se a mente restar sã;
Encherá o peito de ar, pela manhã!


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Tempestade

Tenho a impressão que a felicidade não é algo que construímos ou conquistamos. A felicidade é um dom: Alguns têm, outros não. Ou se descobre nos acasos da vida, ou nunca se descobre, como se para sempre nos deixasse orfanados. Lutar é em vão. Às vezes sinto-me em vão...



Esfrangalhei as asas em queda abrupta
E não sei o que sou
Figura por demais caricatural e bruta
Inimigo de mim próprio, por onde vou
Estilhaços de um amor de cristal
Que não devia, mas fez mal
Agora dói-me a tua ausência
Em toda a doçura um azedume
Uma insatisfação, ou um queixume
A isto não responde nenhuma ciência
Sonhei, mas acho que não acreditei
Com suficiente força ou fé
E fiquei na costa, remoinho da vida, sem pé
Agora a debater-me nos meus medos e receios
Fantasmas misturados com anseios
E sem jeito, nem saber,
O sonho foge, em areia se desfaz!
A felicidade, bruma a desaparecer,
Ainda ontem tudo parecia estar bem e de feição,
No peito em felicidade, pulando o coração,
Batia forte e hoje…éis que aqui jaz.



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Voando Só





Eu gostaria de ao nascer do sol, nascer também. O peso dos pecados que me atiram para o sono, pela noite, pudessem jazer para sempre na escuridão. E cada manhã fosse uma promessa plena e nova. Quem sabe? Talvez a existência se tornasse mais suportável, porque haveria sempre um recomeço. Se calhar, nem era preciso... Uma redenção seria suficiente!



Não sabia que era pássaro;
Até espreguiçar os braços,
E senti-los macios.
Dei uns passos,
No chão da gaiola;
Passos vazios...
Cordas tangendo,
Na viola!
Sou eu gemendo.
E ela veio abrir...
Ficou ali a olhar,
Para mim,
A sorrir!
À espera de me ver,
Partir,
Voar!
Abri os braços,
Asas esticadas!
Do voo, vi-lhe os traços,
(Nenhum arrepio me bule.)
Um esforço, umas penadas!
Lancei-me em mergulho,
Apanhei bebedeiras de azul!
E esta sensação de euforia,
Embriaguez de alegria,
Tão bom sentir-me assim!
Mas era uma ilusão,
Esse céu todo pra mim!
(Era talvez hiper-ventilação,
Ar limpo, sem nenhum pó.)
E tudo, porque voava só...

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Terceiro Acto






Já pensaste quando vais partir? Dantes doía-me pensar nisso. Imaginar um futuro onde eu não estivesse, parecia-me insuportável. Agora já não. Acho que ficamos tão fartos de tudo, da repetição dos erros, dos nossos e dos outros, até à náusea. De alguma forma partir torna-se um alívio, já não faz mal. Mas nunca sabemos quando esse dia chega... O dia da chuva negra.



Que chuva cai, tão negra,
Excepção que confirma a regra;
Que a chuva é transparente!
Já não sei se é delírio da mente,
Pedaço este de mim, sem cura,
Esta chuva ácida que corrói e me perfura!

Diz-me se não pareço um adamastor?

E se sorrio é uma mentira, artefacto,
Coisa pouca, fingindo não ser dor;
Para revelar tudo no final, terceiro acto,
Desta peça teatral, que é a vida,
Cena final, sempre perdida!


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