Mágoa II

Quem nunca ficou preso nuns olhos da cor do arco-íris que prometiam tesouro no fim? Mas os olhos, quiseram partir, ver outras coisas que não nós. E toda a gente sabe que só há arco-íris quando chove... E às vezes chove e não é para encontrar tesouro no fim do arco-íris, mas apenas para ficar na lama.

Os meus olhos em água,
São o sinal desta mágoa.
Semente daninha,
Que ficou minha.
Foi crescendo,
E eu vivendo,
A faço crescer!

Quem me dera te esquecer,
Apaziguar este vazio em mim!
Rio seco a que não consigo por fim,
Por mais que chova, eu feito nuvem,
É um negro de doer, por ti,
E por mim também...
(Cada um sabe de si!)
Eu sei que estou só,
Na secura, apenas sou pó.
E quando recordo a nossa chama,
Me transformo em lama...


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Poema da alma vazia


A pior das coisas é envelhecer, porque mesmo que não se seja inteligente, alguma sabedoria fica da experiência. Meninos inquietos que fomos, velhos temerosos que nos tornamos e pelo meio é tudo (ou quase) um enorme desperdício que andámos a pensar que era vida e eram só ilusões. Por isso a alma, entretanto sábia, desespera. E é só a amargura que lhe sabe o seu vazio...


Sei que o tempo não volta para trás.
Isto são caprichos que a memória faz,
De persistir em ensombrar-me os dias,
Com um futuro que podia ter sido,
E não este presente e estas vias!

Há por isso na minha boca desejosa,
O sabor de um fruto que não comi.
Talvez anseios de uma vida perigosa,
De aventura que nunca vivi!

Este sabor sanguinolento,
É afinal o lábio que mordi.
Ferradela desta frustração,
De ter sido lerdo e lento,
Sem nunca consumar paixão,
Enquanto jovem e a favor do vento!

Sim, eu sei, são mágoas antigas.
Devia pensar no futuro,
Ao invés de recordar.
Velhas cantigas.
Mas sei que já não duro,
Muito mais para além,
De aqui chegar.
E já nada vem...

Talvez sejam sonhos de velho caduco!
Vôos sobre ninhos de cuco,
Que é preciso ser louco,
Não se contentar com pouco!
Sei que erro neste fado,
Vida que me passou ao lado!
E é triste, e esta tristeza,
Amargura-me em excesso;
Talvez seja só falta de sexo!

Deixei de usufruir a beleza,
De um tempo que passou.
E agora que findou,
Fica esta sensação amarga,
Que não me larga!

Oh eu sei, todos os velhos chegam aqui:
Há saudade que têm consciência de ter perdido!
Não sei agora porque te quero a ti,
Patética criatura que tenho sido.
É este coração doido no meu peito,
Que ainda que voar, querer acreditar,
Que o que não fiz, ainda pode ser feito!

E já não pode, que se esgota!
Taça quebrada, agora rota!
Não importa mais o que se quer,
Tudo é cinzento e negro de ver.
Louco! Oh velho louco que anseias,
Rompeste as solas, até às meias,
Mas foi só a andar!
Tudo passou...
Tudo há-de passar,
Por aqui por onde vou!
Água de rio por baixo da ponte,
Corre pró mar,
Vem da fonte,
Só pra lá chegar!

Há um peso nas pálpebras...
Restos de coisas que não são.
Não me perguntes nada,
Que estou esgotado.
É tudo frustração,
Que se transforma em raiva!
Tudo me enfada,
Tudo soa a fado.

Oh e dantes eu gritava em esperança,
Mesmo quando ela me tirava o ar,
E afundava o peito em sobressaltos!
Sempre havia alguma dança,
Um desejo de saltitar!
Porque estava confiante,
Que o futuro seria grande!

E não é, nada é como sonhei.
Nem devia estranhar...
Esta sabor de amargor.
Nada sei,
E dizem que sou inteligente!
Sinto-me doente,
Nesta dor de alma,
Que nunca consumou,
Um amor paixão,
De derreter as pedras da calçada!
Água que foi e é passada!
Tudo é nada, Tudo é nada!
Nesta angústia de alma que grita,
Está vazia e está aflita!


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Mágoa


Diz-se que o tempo tudo cura, mas o tempo nunca curou coisa nenhuma. O que o tempo faz é atenuar a dor. Se conseguirmos esquecer, tanto melhor; mas é sempre difícil esquecer e a mágoa torna-se lago e cresce, Seria contudo um disparate que não se deixasse doer. A dor faz também parte do enamoramento e realmente existe como contra-tempo fazendo ressaltar o que de bom se foi tendo...



Magoa-me a tua ausência.
Este forçado exílio a que me remete.
Não há ciência,
Clarividência,
Que explique este sofrimento;
A que me submete,
O teu desprezo, a todo momento!

Quem dera que eu fosse de pedra!
Raiva que em mim medra,
Dar-me todo por inteiro,
E acabar a penar nesta solidão.
Querer a tua mão,
E ficar vazio sem nada!

Quimera dourada,
Que nunca chega a acontecer!
Espaço entre viver e morrer,
Que apenas passa!
Visão baça,
Entorpecente,
Desta mágoa que me deixa doente!



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Ela é livre!


Todo o animal preso definha, até o cão fiel que sempre viveu preso a uma corrente ou fechado em algum quintal pequeno, ou num terraço. Ou um homem a uma esperança de amor... Ansiamos a liberdade como o vento sobre o oceano ou as águas do rio, correndo sempre, mesmo que as margens o apertem. Mas às vezes a liberdade é maldição...


Ela é livre!
Como as sementes,
Flutuando ao vento.
Cheias de promessas,
Que frutificarão, ou não.

Ela é livre!
Em especial de amores, folhas deixadas cair;
Porque para ela haverá sempre outras paixões!
Não sei se tem raízes, um lugar onde esperar;
O calor do sol, ou o rubor na sua face!
Que as rainhas querem-se frias e sem corar.

Ela é livre!
Na imensidão das possibilidades,
Roubando-me das minhas.
Deixando-me um sabor amargo,
Limpando a boca e dizendo:
-- Não cometi agravo!

Ainda bem que não sou livre como ela...



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Uma morte misericordiosa


Chegar ao fim da vida para encontrar nesse fim, sofrimento e a sensação de que a vida não vale a pena, é o exemplo mais claro que não existe nenhum Deus amoroso com vontade de nos salvar. É como o Pai Natal. E se Deus se condena, então agora em seu lugar cabe-nos assumir a responsabilidade por nos salvarmos. Está nas nossas mãos. Pois... ocorreu-me o mesmo: Com a actual humanidade, é sem esperança.


Sei que me amas e por isso,
Quero fazer-te um pedido:
Quando eu enlouquecer,
Porque o mundo,
Se tornou um lugar de desespero.
E eu na minha covardia,
Apenas conseguir ficar tolhido e a chorar…
Toma tu a coragem que não tenho,
E mata-me, uma morte por amor!

Oh dá-me uma doce morte,
Que estou farto deste mundo,
Entre a estupidez e barbárie!
Onde a injustiça, a desigualdade, a pobreza,
É como um cancro que se alastra,
Até me causar um sofrimento insuportável!
E não consigo parar esta dor que cresce,
E anseio o alívio vindo nas tuas mãos!
Mata-me sem remorsos, uma morte misericordiosa…


Quando aqueles que chegam ao fim,
Têm de escolher entra a comida ou a saúde.
E todos entoam loas ao capitalismo,
Levando à morte sempre dos mesmos:
Os no fundo da cadeia, despidos até de dignidade!
E que numa purga darwiniana, eliminam-se os fracos,
A quem a única escolha que se lhes dá,
É a de morrerem depressa!
Não sou desses! Não quero ser desses!

E sou demasiado covarde para dar um tiro na cabeça.
Resultado desta sensação de impotência de estar só.
Tenho de deixar à solta esses zombies, anjos da morte,
Disfarçados de piedosas intenções!
Não, eu não sou desta espécie de humanidade bastarda,
Que prefere o caminho mais fácil: enterrar a salvar!
Mata-me! Mata-me por favor, que me enganei ao nascer!




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Por amor



Photo by Azhar J on Unsplash

 
Quem nunca teve sonhos de contar histórias como Xerazade, histórias sem fim, que permitissem que a espada de Dâmocles nunca cortasse esse fio que nos prende à vida! Ainda hoje contamos histórias, porque só as narrativas dão sentido ao mundo e há nossa curta existência. São apenas mil e uma noites...

Nada de heróis do nada, com mãos que seguram areia
Somos apenas como as moscas, acabando na teia
E não importa muito o como, apenas a chegada
Que a morte é tudo e a vida um montão de nada
É apenas por medo que contamos histórias de encantar
Que ao fim de mil e uma noites, nos acabe a apanhar
E tecemos narrativas na esperança de um sentido
Mas acaba tudo como começou, tudo podia ter sido
Mas foi só nosso, esse destino irredutível percorrido
E como lamentamos a escravidão das nossas vidas
Que ano após ano, assim se foram, lamentavelmente perdidas
Alguns, enchem-nas de experiências, vivência atrás de vivência
Não se perdem em conjeturas vãs, filosofia ou ciência
É antes comamos e bebamos, porque amanhã morreremos
E deixaremos o palco para outros atores repetirem os papéis
Personagens vagos, assistentes que movem cenários e carretéis
Contem-me uma última história, onde seja herói, por favor
Onde eu salve o mundo, mas não de espada, mas como Cristo, por amor!





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A NEGRA SOMBRA

Todas as tempestades acabam deixando de novo a luz brilhar, mesmo que a princípio tímida, hesitante, como se viesse a medo. Mas acaba por vir. A luz carrega nas suas asas a esperança, abre-nos os olhos, mesmo que à força de um despertar brusco. E a tempestade reforçou a nossa força, mesmo quando nos deixa mais sós.

Oh A sorrateira sombra,
Trazendo a noite negra,
Macia como veludo,
Um escuro que rouba tudo!
Rio que de profundo enegreceu,
Não corre mais, morreu.
Mas hoje não quero saber.
Hoje não é bom dia para morrer!
Estou cansado e quero dormir.
O sol brilha, a sombra vai a fugir.
Serei pássaro e hei-de voar,
A sombra correndo atrás!
O que a vontade faz,

Que se me há-de alcançar,
Terá de se esforçar,
Terá de se matar!




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Desistir de amar

Há um frio que nasce dentro e vai crescendo, feito dos males do mundo, das desilusões, das frustrações, dos sonhos abandonados no percurso. Percurso de alpinista solitário a subir cumes sem auxílio nenhum. Nos momentos em que se tem de bastar a si próprio. Às vezes o cansaço é tão grande, que só se pensa em desistir... Desistir de tudo, do amor e da vida, porque a vida sem amor não vale nada.

Tolo! Oh quão tolo fui,
Acreditar no amor,
Quando ele nunca prometeu!
Expliquem-me o porquê desta dor!
O que faz de mim, quem sou eu?
Um louco delirando?
Parado, a sonhar que ando?
Que importa o que penso ou sou?
O tempo arrasta-me para onde vou!
Não porque o consinta ou queira,
Mas porque não há outra maneira!
Não é destino, é desatino;
Em mim fantasia de sonhar!
Preço desta ilusão de acreditar,
Que o amor é mágico, transcendente!
Mas essa é uma filosofia que nos mente.
Não há nada senão a nossa animalidade...
Tudo resto não é verdade!
A ilusão é a felicidade!
Devo parar,
De acreditar,
Deixar de amar!




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É tarde...


Às vezes era bom que tudo acabasse. Para tirar esta dor no peito de estar vazio, de ser só, como uma estrela no meio da negridão do cosmos. O peito feito pisadura. As coisas que já não podem ser. Estar perdido. Não pertencer a nada, nem a ninguém. Ser uma ilha no meio do mar. Deixar de esperar...


Gosto do céu sem limites,
Dos sonhos de eternidade.
Agora é a consciência da finitude.
E este intervalo é a plenitude,
Toda a vida que se tem!
É tarde, tão tarde...

Para saborear uma paixão,
Palpitar coração com coração,
Para num instante,
Tudo valer a pena!
É tarde, tão tarde...

Para segurar de novo a tua mão,
Para te prometer a Lua,
Desejar-te nua!
Em ti ser marinheiro, naufragar!
E tu a me ressuscitar,
No boca-a-boca de um beijo,
Sôfrego de intenso desejo!
É tarde, tão tarde...

Sou metade do homem que fui.
Vejo no espelho o meu cansaço,
Que também te marca a ti.
O tempo que nos esculpe,
Em estátuas de ruína,
Que se hão-de desfazer.
É tarde, tão tarde...

Que sonhar contigo,
É um imenso arrastar,
De memórias que devia evitar!
Uma inquietude, uma agonia,
Querer e não poder,
Sentir tudo a fugir,
Tudo a sumir.
É tarde...


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NÃO RESTA NADA


A vida aos poucos deixa-nos, como se não fossemos dela merecedores. Insistimos, permanecemos, com ela constante a tentar reenviar-nos para onde viemos: ao pó. Donde viemos e para onde vamos. Alguns dizem que o pó de que somos feitos é o mesmo pó das estrelas. Até pode ser. Mas convenhamos que é sempre um punhado de nada...

Aos poucos secam as fontes;
Os regatos deixam de cantar,
Perdidos nos vales dos montes.
E os rios meandram até sumir.
Os campos deixam de florir.
Não pode ser doutra maneira.
O sol do orgulho é uma torreira!
Do norte sopra a nortada,
Do pouco, não resta nada!




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