Uma morte misericordiosa


Chegar ao fim da vida para encontrar nesse fim, sofrimento e a sensação de que a vida não vale a pena, é o exemplo mais claro que não existe nenhum Deus amoroso com vontade de nos salvar. É como o Pai Natal. E se Deus se condena, então agora em seu lugar cabe-nos assumir a responsabilidade por nos salvarmos. Está nas nossas mãos. Pois... ocorreu-me o mesmo: Com a actual humanidade, é sem esperança.


Sei que me amas e por isso,
Quero fazer-te um pedido:
Quando eu enlouquecer,
Porque o mundo,
Se tornou um lugar de desespero.
E eu na minha covardia,
Apenas conseguir ficar tolhido e a chorar…
Toma tu a coragem que não tenho,
E mata-me, uma morte por amor!

Oh dá-me uma doce morte,
Que estou farto deste mundo,
Entre a estupidez e barbárie!
Onde a injustiça, a desigualdade, a pobreza,
É como um cancro que se alastra,
Até me causar um sofrimento insuportável!
E não consigo parar esta dor que cresce,
E anseio o alívio vindo nas tuas mãos!
Mata-me sem remorsos, uma morte misericordiosa…


Quando aqueles que chegam ao fim,
Têm de escolher entra a comida ou a saúde.
E todos entoam loas ao capitalismo,
Levando à morte sempre dos mesmos:
Os no fundo da cadeia, despidos até de dignidade!
E que numa purga darwiniana, eliminam-se os fracos,
A quem a única escolha que se lhes dá,
É a de morrerem depressa!
Não sou desses! Não quero ser desses!

E sou demasiado covarde para dar um tiro na cabeça.
Resultado desta sensação de impotência de estar só.
Tenho de deixar à solta esses zombies, anjos da morte,
Disfarçados de piedosas intenções!
Não, eu não sou desta espécie de humanidade bastarda,
Que prefere o caminho mais fácil: enterrar a salvar!
Mata-me! Mata-me por favor, que me enganei ao nascer!




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Por amor



Photo by Azhar J on Unsplash

 
Quem nunca teve sonhos de contar histórias como Xerazade, histórias sem fim, que permitissem que a espada de Dâmocles nunca cortasse esse fio que nos prende à vida! Ainda hoje contamos histórias, porque só as narrativas dão sentido ao mundo e há nossa curta existência. São apenas mil e uma noites...

Nada de heróis do nada, com mãos que seguram areia
Somos apenas como as moscas, acabando na teia
E não importa muito o como, apenas a chegada
Que a morte é tudo e a vida um montão de nada
É apenas por medo que contamos histórias de encantar
Que ao fim de mil e uma noites, nos acabe a apanhar
E tecemos narrativas na esperança de um sentido
Mas acaba tudo como começou, tudo podia ter sido
Mas foi só nosso, esse destino irredutível percorrido
E como lamentamos a escravidão das nossas vidas
Que ano após ano, assim se foram, lamentavelmente perdidas
Alguns, enchem-nas de experiências, vivência atrás de vivência
Não se perdem em conjeturas vãs, filosofia ou ciência
É antes comamos e bebamos, porque amanhã morreremos
E deixaremos o palco para outros atores repetirem os papéis
Personagens vagos, assistentes que movem cenários e carretéis
Contem-me uma última história, onde seja herói, por favor
Onde eu salve o mundo, mas não de espada, mas como Cristo, por amor!





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A NEGRA SOMBRA

Todas as tempestades acabam deixando de novo a luz brilhar, mesmo que a princípio tímida, hesitante, como se viesse a medo. Mas acaba por vir. A luz carrega nas suas asas a esperança, abre-nos os olhos, mesmo que à força de um despertar brusco. E a tempestade reforçou a nossa força, mesmo quando nos deixa mais sós.

Oh A sorrateira sombra,
Trazendo a noite negra,
Macia como veludo,
Um escuro que rouba tudo!
Rio que de profundo enegreceu,
Não corre mais, morreu.
Mas hoje não quero saber.
Hoje não é bom dia para morrer!
Estou cansado e quero dormir.
O sol brilha, a sombra vai a fugir.
Serei pássaro e hei-de voar,
A sombra correndo atrás!
O que a vontade faz,

Que se me há-de alcançar,
Terá de se esforçar,
Terá de se matar!




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Desistir de amar

Há um frio que nasce dentro e vai crescendo, feito dos males do mundo, das desilusões, das frustrações, dos sonhos abandonados no percurso. Percurso de alpinista solitário a subir cumes sem auxílio nenhum. Nos momentos em que se tem de bastar a si próprio. Às vezes o cansaço é tão grande, que só se pensa em desistir... Desistir de tudo, do amor e da vida, porque a vida sem amor não vale nada.

Tolo! Oh quão tolo fui,
Acreditar no amor,
Quando ele nunca prometeu!
Expliquem-me o porquê desta dor!
O que faz de mim, quem sou eu?
Um louco delirando?
Parado, a sonhar que ando?
Que importa o que penso ou sou?
O tempo arrasta-me para onde vou!
Não porque o consinta ou queira,
Mas porque não há outra maneira!
Não é destino, é desatino;
Em mim fantasia de sonhar!
Preço desta ilusão de acreditar,
Que o amor é mágico, transcendente!
Mas essa é uma filosofia que nos mente.
Não há nada senão a nossa animalidade...
Tudo resto não é verdade!
A ilusão é a felicidade!
Devo parar,
De acreditar,
Deixar de amar!




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É tarde...


Às vezes era bom que tudo acabasse. Para tirar esta dor no peito de estar vazio, de ser só, como uma estrela no meio da negridão do cosmos. O peito feito pisadura. As coisas que já não podem ser. Estar perdido. Não pertencer a nada, nem a ninguém. Ser uma ilha no meio do mar. Deixar de esperar...


Gosto do céu sem limites,
Dos sonhos de eternidade.
Agora é a consciência da finitude.
E este intervalo é a plenitude,
Toda a vida que se tem!
É tarde, tão tarde...

Para saborear uma paixão,
Palpitar coração com coração,
Para num instante,
Tudo valer a pena!
É tarde, tão tarde...

Para segurar de novo a tua mão,
Para te prometer a Lua,
Desejar-te nua!
Em ti ser marinheiro, naufragar!
E tu a me ressuscitar,
No boca-a-boca de um beijo,
Sôfrego de intenso desejo!
É tarde, tão tarde...

Sou metade do homem que fui.
Vejo no espelho o meu cansaço,
Que também te marca a ti.
O tempo que nos esculpe,
Em estátuas de ruína,
Que se hão-de desfazer.
É tarde, tão tarde...

Que sonhar contigo,
É um imenso arrastar,
De memórias que devia evitar!
Uma inquietude, uma agonia,
Querer e não poder,
Sentir tudo a fugir,
Tudo a sumir.
É tarde...


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NÃO RESTA NADA


A vida aos poucos deixa-nos, como se não fossemos dela merecedores. Insistimos, permanecemos, com ela constante a tentar reenviar-nos para onde viemos: ao pó. Donde viemos e para onde vamos. Alguns dizem que o pó de que somos feitos é o mesmo pó das estrelas. Até pode ser. Mas convenhamos que é sempre um punhado de nada...

Aos poucos secam as fontes;
Os regatos deixam de cantar,
Perdidos nos vales dos montes.
E os rios meandram até sumir.
Os campos deixam de florir.
Não pode ser doutra maneira.
O sol do orgulho é uma torreira!
Do norte sopra a nortada,
Do pouco, não resta nada!




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POETA TRISTE


Que importa o dom? Há dons que são como maldições e mais valia não os ter. Às vezes é como se fosse uma antena. Uma antena a absorver todas as vibrações do mundo, o sentir o que se transforma em sentimentos. E o dom apenas te deixa sintonizar essa música. Essa música que toca sempre triste...



Ai quem dera que o poeta triste,
Encontrasse a alegria.
Quão diferente seria,
A sua poesia,
Que apenas na tristeza insiste!

Quem dera que o poeta triste,
Apanhasse um pouco de sol no rosto!
Mas tu já viste?
Apenas conhece o sol posto!

Oh poeta assim tão triste,
Quem de tal tristeza te inundou?
Que beleza te cegou,
Para quem como tu, assim resiste?
Tanto da alegria se separou!

Oh poeta triste,
Não cegues já!
Olha que a vida não é má
É apenas um chiste!




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Milagre


Dizem que não há milagres. Talvez não haja mesmo, ou então mentiram-nos porque esperar por eles, demora quase sempre uma eternidade.Ninguém tem eternidades para esperar. Aliás o tempo é rápido a correr connosco, sempre com pressa do futuro. Ergues os braços para o céu, mas é apenas para expressar impotência. Tudo o que tens de sobra...


Ser ou não ser,
Na impossibilidade,
De escolher.
Sem facilidade,
Deixar cair.
Tombar,
Ser para morrer.
Sentir,
Que amar,
Não é suficiente.
Que um dos dois,
É tolo, um demente!
E aqui se chega pois,
Às encruzilhadas.
Linhas da vida,
Armadilhadas.



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Estações

A existência é feita de ciclos. Porque a natureza nem sempre está disposta a inventar caminhos novos, quando se acostuma a velhos hábitos. Para quê inventar a eternidade se descobriu a renovação. Ou para quê tirar-te da queda depois que descobriu a gravidade? Ou o que é um poema se uma forma de traduzires por palavras o que sentes. E as palavras nunca chegam. E tivemos de inventar a música...

Não importa à Primavera,
Se estou pronto ou não!
Ela não espera,
E tu também não.
Não me pegas pela mão,
Achas-me crescido.
Ou já não seja apetecido,
E se não estiver,
Ficarei para trás!
Ou o que tiver de acontecer,
Já tanto faz!

Depois virá o Verão!
E o esperado calor,
Pouca roupa, muita paixão!
Ou apenas para mim,
Já tudo seja assim,
Uma triste canção,
A anunciar o fim.

Sereno Outono da folha a cair!
A importância a diminuir;
A sensação de ficar insignificante,
Estar já perto o fim,
Que a vida é um instante!
Nem sei para que vim!

Está tudo em branca mortalha,
O Inverno nunca falha!
Chega sempre o cair do pano.
Sai-se sempre da vida em dano,
Porque nada dura.
Ai tanto frio que aqui faz,
Descanso longo que perdura,
Nesta cama de pedra onde se jaz!


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Vazio

Há noite, perante o infinito de um céu estrelado, sempre vem acompanhado de uma náusea quase à beira do vómito, nessa angústia infinita de me saber tão pequeno no vasto Universo. Como acreditar que sejamos especiais? Talvez faça sentido neste caldeirão gigantesco, o acaso ter feito das suas e parido esta espécie, que temporariamente habita aqui, por aqui, até que...

Já não sei onde fica a cama,
Que voz me chama,
Que paixão me inflama...
Tenho a cabeça cheia de ecos,
Tonto da dança dos bonecos,
Cansado de andar aos tombos.
Ou só, tão só, sentado no jardim,
A atirar pão duro aos pombos,
Que voam para mim!

Inquietude que me alcança,
Nesta vida feita dança,
Em que dançamos sozinhos.
Múltiplos caminhos,
Que levam a lugar nenhum.
E às vezes pensávamos ser dois
Sendo que afinal, era só um.
Quarto de espelhos onde me confundo,
Depois do cansaço e da solidão,
Desejo de um sono profundo.
Tranquilo, aquietado coração,
Que mais nenhuma paixão,
Vem agora perturbar.
E se me ouvires chamar,
É apenas um eco perdido,
Que te há-de haver confundido!
E se ao andar assim sereno, ainda sorrio;
Repara no meu olhar: é como eu, vazio...


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