Desistir de amar

Há um frio que nasce dentro e vai crescendo, feito dos males do mundo, das desilusões, das frustrações, dos sonhos abandonados no percurso. Percurso de alpinista solitário a subir cumes sem auxílio nenhum. Nos momentos em que se tem de bastar a si próprio. Às vezes o cansaço é tão grande, que só se pensa em desistir... Desistir de tudo, do amor e da vida, porque a vida sem amor não vale nada.

Tolo! Oh quão tolo fui,
Acreditar no amor,
Quando ele nunca prometeu!
Expliquem-me o porquê desta dor!
O que faz de mim, quem sou eu?
Um louco delirando?
Parado, a sonhar que ando?
Que importa o que penso ou sou?
O tempo arrasta-me para onde vou!
Não porque o consinta ou queira,
Mas porque não há outra maneira!
Não é destino, é desatino;
Em mim fantasia de sonhar!
Preço desta ilusão de acreditar,
Que o amor é mágico, transcendente!
Mas essa é uma filosofia que nos mente.
Não há nada senão a nossa animalidade...
Tudo resto não é verdade!
A ilusão é a felicidade!
Devo parar,
De acreditar,
Deixar de amar!




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É tarde...


Às vezes era bom que tudo acabasse. Para tirar esta dor no peito de estar vazio, de ser só, como uma estrela no meio da negridão do cosmos. O peito feito pisadura. As coisas que já não podem ser. Estar perdido. Não pertencer a nada, nem a ninguém. Ser uma ilha no meio do mar. Deixar de esperar...


Gosto do céu sem limites,
Dos sonhos de eternidade.
Agora é a consciência da finitude.
E este intervalo é a plenitude,
Toda a vida que se tem!
É tarde, tão tarde...

Para saborear uma paixão,
Palpitar coração com coração,
Para num instante,
Tudo valer a pena!
É tarde, tão tarde...

Para segurar de novo a tua mão,
Para te prometer a Lua,
Desejar-te nua!
Em ti ser marinheiro, naufragar!
E tu a me ressuscitar,
No boca-a-boca de um beijo,
Sôfrego de intenso desejo!
É tarde, tão tarde...

Sou metade do homem que fui.
Vejo no espelho o meu cansaço,
Que também te marca a ti.
O tempo que nos esculpe,
Em estátuas de ruína,
Que se hão-de desfazer.
É tarde, tão tarde...

Que sonhar contigo,
É um imenso arrastar,
De memórias que devia evitar!
Uma inquietude, uma agonia,
Querer e não poder,
Sentir tudo a fugir,
Tudo a sumir.
É tarde...


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NÃO RESTA NADA


A vida aos poucos deixa-nos, como se não fossemos dela merecedores. Insistimos, permanecemos, com ela constante a tentar reenviar-nos para onde viemos: ao pó. Donde viemos e para onde vamos. Alguns dizem que o pó de que somos feitos é o mesmo pó das estrelas. Até pode ser. Mas convenhamos que é sempre um punhado de nada...

Aos poucos secam as fontes;
Os regatos deixam de cantar,
Perdidos nos vales dos montes.
E os rios meandram até sumir.
Os campos deixam de florir.
Não pode ser doutra maneira.
O sol do orgulho é uma torreira!
Do norte sopra a nortada,
Do pouco, não resta nada!




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POETA TRISTE


Que importa o dom? Há dons que são como maldições e mais valia não os ter. Às vezes é como se fosse uma antena. Uma antena a absorver todas as vibrações do mundo, o sentir o que se transforma em sentimentos. E o dom apenas te deixa sintonizar essa música. Essa música que toca sempre triste...



Ai quem dera que o poeta triste,
Encontrasse a alegria.
Quão diferente seria,
A sua poesia,
Que apenas na tristeza insiste!

Quem dera que o poeta triste,
Apanhasse um pouco de sol no rosto!
Mas tu já viste?
Apenas conhece o sol posto!

Oh poeta assim tão triste,
Quem de tal tristeza te inundou?
Que beleza te cegou,
Para quem como tu, assim resiste?
Tanto da alegria se separou!

Oh poeta triste,
Não cegues já!
Olha que a vida não é má
É apenas um chiste!




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Milagre


Dizem que não há milagres. Talvez não haja mesmo, ou então mentiram-nos porque esperar por eles, demora quase sempre uma eternidade.Ninguém tem eternidades para esperar. Aliás o tempo é rápido a correr connosco, sempre com pressa do futuro. Ergues os braços para o céu, mas é apenas para expressar impotência. Tudo o que tens de sobra...


Ser ou não ser,
Na impossibilidade,
De escolher.
Sem facilidade,
Deixar cair.
Tombar,
Ser para morrer.
Sentir,
Que amar,
Não é suficiente.
Que um dos dois,
É tolo, um demente!
E aqui se chega pois,
Às encruzilhadas.
Linhas da vida,
Armadilhadas.



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Estações

A existência é feita de ciclos. Porque a natureza nem sempre está disposta a inventar caminhos novos, quando se acostuma a velhos hábitos. Para quê inventar a eternidade se descobriu a renovação. Ou para quê tirar-te da queda depois que descobriu a gravidade? Ou o que é um poema se uma forma de traduzires por palavras o que sentes. E as palavras nunca chegam. E tivemos de inventar a música...

Não importa à Primavera,
Se estou pronto ou não!
Ela não espera,
E tu também não.
Não me pegas pela mão,
Achas-me crescido.
Ou já não seja apetecido,
E se não estiver,
Ficarei para trás!
Ou o que tiver de acontecer,
Já tanto faz!

Depois virá o Verão!
E o esperado calor,
Pouca roupa, muita paixão!
Ou apenas para mim,
Já tudo seja assim,
Uma triste canção,
A anunciar o fim.

Sereno Outono da folha a cair!
A importância a diminuir;
A sensação de ficar insignificante,
Estar já perto o fim,
Que a vida é um instante!
Nem sei para que vim!

Está tudo em branca mortalha,
O Inverno nunca falha!
Chega sempre o cair do pano.
Sai-se sempre da vida em dano,
Porque nada dura.
Ai tanto frio que aqui faz,
Descanso longo que perdura,
Nesta cama de pedra onde se jaz!


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Vazio

Há noite, perante o infinito de um céu estrelado, sempre vem acompanhado de uma náusea quase à beira do vómito, nessa angústia infinita de me saber tão pequeno no vasto Universo. Como acreditar que sejamos especiais? Talvez faça sentido neste caldeirão gigantesco, o acaso ter feito das suas e parido esta espécie, que temporariamente habita aqui, por aqui, até que...

Já não sei onde fica a cama,
Que voz me chama,
Que paixão me inflama...
Tenho a cabeça cheia de ecos,
Tonto da dança dos bonecos,
Cansado de andar aos tombos.
Ou só, tão só, sentado no jardim,
A atirar pão duro aos pombos,
Que voam para mim!

Inquietude que me alcança,
Nesta vida feita dança,
Em que dançamos sozinhos.
Múltiplos caminhos,
Que levam a lugar nenhum.
E às vezes pensávamos ser dois
Sendo que afinal, era só um.
Quarto de espelhos onde me confundo,
Depois do cansaço e da solidão,
Desejo de um sono profundo.
Tranquilo, aquietado coração,
Que mais nenhuma paixão,
Vem agora perturbar.
E se me ouvires chamar,
É apenas um eco perdido,
Que te há-de haver confundido!
E se ao andar assim sereno, ainda sorrio;
Repara no meu olhar: é como eu, vazio...


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Semente

Parece que a vida persiste em qualquer lugar por mais agreste! A vida parece assim dotada de uma persistência louca de uma resiliência feita de milhões de anos! Mas não sei se vale a pena tanta persistência e tanta resiliência. Nem sei mesmo se a vida não foi apenas uma questão de acaso, de moléculas que sem terem nada para fazer, quisessem dançar e ao caírem de cansaço espreguiçou-se a vida. Raios partam mais à dança! E se alguém te inventou...

Ah agora sei que não sou.
Em mim mora a hipocrisia;
E eu não sei para onde vou,
Esta escolha, não a queria!

Mas não importa o meu querer!
Todos nos querem por trela,
Desejam mando, nosso obedecer,
E que ainda achemos a vida bela!

Não sei que dizer,
Sinto-me vazio,
Talvez morrer,
Seja prémio!

Que merda me tornei,
Como aqui vim parar?
Ao certo, nem eu o sei ,
Mas sinto-me a sufocar!

Coisas malditas que nos apertam,
Como torquezes nos nós dos dedos,
Que torturas a mais se suportam,
Ignaro resultado dos meus medos!

Oh eu sei, não sou soldado!
Sinto-me de tudo despojado,
Do amor, dos belos ideais,
Tudo é já demais!

Cansei-me, farto de ser,
Desta permanente vida errada!
Já nenhuma vontade de viver,
Só a de ser semente e enterrada!


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As palavras estão gastas

Já não sei dizer, porque tudo o que digo, parecem estilhaços. Entram-te na carne, mas quem sofre sou eu. As palavras são o pretexto, para dizer que me amaste. E pelas mesmas palavras vais embora. Ficam as palavras que usamos. Gastaram-se. Podes enterrar tudo...

As palavras estão gastas...
Como o comboio que sai da estação.
Como esta pedra que se esboroa nos meu dedos.
Como a água que passou debaixo da ponte.

As palavras estão gastas!
Como a paz que cede,ao medo.
Como a flor que cresce na fenda do penedo.
Como o meu ar cansado...

As palavras estão gastas!
Nos lábios emudecidos.
Na mão que acena.
No lenço branco que se agita!

As palavras estão gastas!
No cinzel sem força.
No resto do teu nome.
Jazem neste coração calado.

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Cacos Partidos

Não sei se a vida conserva algum sentido. Para mim ela aconteceu de um acaso fortuito, nunca teve, nem terá sentido. A vida é apenas uma lágrima do Universo que morre de tédio. Mas ele permanece e somos nós que vamos morrendo, pouco a pouco, nos nossos sonhos, nas utopias e nos delírios. E no amor, que é apenas outra coisa tão sem sentido quanto a própria vida... O meu coração está partido e deixou escapar o que tinha dentro; estou vazio...

Coração de cacos partidos...
Dor em aumento exponencial.
Mundo do caos e da entropia.

Velhos caminhos percorridos,
Numa senda que é sempre de mal;
Onde o futuro é uma mera utopia!

Perdoai-me as palavras com que menti!
Os sonhos que embora, também meus,
Eram apenas o meu espelho, sonhos que vi.

Nem Deus, nem amor, nem antes, nem depois;
A morte é Toda-Poderosa, todos somos seus!
Perdoai-me ter-vos feito sonhar libertação!

Doi-me no peito este fraco coração...
Já não acredito em sonhos, nem na eternidade,
Sou sem esperança, nenhuma veleidade!


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