A vida aos poucos deixa-nos, como se não fossemos dela merecedores. Insistimos, permanecemos, com ela constante a tentar reenviar-nos para onde viemos: ao pó. Donde viemos e para onde vamos. Alguns dizem que o pó de que somos feitos é o mesmo pó das estrelas. Até pode ser. Mas convenhamos que é sempre um punhado de nada...
Aos poucos secam as fontes; Os regatos deixam de cantar, Perdidos nos vales dos montes. E os rios meandram até sumir. Os campos deixam de florir. Não pode ser doutra maneira. O sol do orgulho é uma torreira! Do norte sopra a nortada, Do pouco, não resta nada!
Que
importa o dom? Há dons que são como maldições e mais valia não os ter.
Às vezes é como se fosse uma antena. Uma antena a absorver todas as
vibrações do mundo, o sentir o que se transforma em sentimentos. E o dom
apenas te deixa sintonizar essa música. Essa música que toca sempre
triste...
Dizem que não há milagres. Talvez não haja mesmo, ou então mentiram-nos porque esperar por eles, demora quase sempre uma eternidade.Ninguém tem eternidades para esperar. Aliás o tempo é rápido a correr connosco, sempre com pressa do futuro. Ergues os braços para o céu, mas é apenas para expressar impotência. Tudo o que tens de sobra...
Ser ou não ser,
Na impossibilidade,
De escolher.
Sem facilidade,
Deixar cair.
Tombar,
Ser para morrer.
Sentir,
Que amar,
Não é suficiente.
Que um dos dois,
É tolo, um demente!
E aqui se chega pois,
Às encruzilhadas.
Linhas da vida,
Armadilhadas.
A existência é feita de ciclos. Porque a natureza nem sempre está disposta a inventar caminhos novos, quando se acostuma a velhos hábitos. Para quê inventar a eternidade se descobriu a renovação. Ou para quê tirar-te da queda depois que descobriu a gravidade? Ou o que é um poema se uma forma de traduzires por palavras o que sentes. E as palavras nunca chegam. E tivemos de inventar a música...
Há noite, perante o infinito de um céu estrelado, sempre vem acompanhado de uma náusea quase à beira do vómito, nessa angústia infinita de me saber tão pequeno no vasto Universo. Como acreditar que sejamos especiais? Talvez faça sentido neste caldeirão gigantesco, o acaso ter feito das suas e parido esta espécie, que temporariamente habita aqui, por aqui, até que...
Já não sei onde fica a cama,
Que voz me chama,
Que paixão me inflama...
Tenho a cabeça cheia de ecos,
Tonto da dança dos bonecos,
Cansado de andar aos tombos.
Ou só, tão só, sentado no jardim,
A atirar pão duro aos pombos,
Que voam para mim!
Inquietude que me alcança,
Nesta vida feita dança,
Em que dançamos sozinhos.
Múltiplos caminhos,
Que levam a lugar nenhum.
E às vezes pensávamos ser dois
Sendo que afinal, era só um.
Quarto de espelhos onde me confundo,
Depois do cansaço e da solidão,
Desejo de um sono profundo.
Tranquilo, aquietado coração,
Que mais nenhuma paixão,
Vem agora perturbar.
E se me ouvires chamar,
É apenas um eco perdido,
Que te há-de haver confundido!
E se ao andar assim sereno, ainda sorrio;
Repara no meu olhar: é como eu, vazio...
Parece que a vida persiste em qualquer lugar por mais agreste! A vida parece assim dotada de uma persistência louca de uma resiliência feita de milhões de anos! Mas não sei se vale a pena tanta persistência e tanta resiliência. Nem sei mesmo se a vida não foi apenas uma questão de acaso, de moléculas que sem terem nada para fazer, quisessem dançar e ao caírem de cansaço espreguiçou-se a vida. Raios partam mais à dança! E se alguém te inventou...
Ah agora sei que não sou.
Em mim mora a hipocrisia;
E eu não sei para onde vou,
Esta escolha, não a queria!
Mas não importa o meu querer!
Todos nos querem por trela,
Desejam mando, nosso obedecer,
E que ainda achemos a vida bela!
Não sei que dizer,
Sinto-me vazio,
Talvez morrer,
Seja prémio!
Que merda me tornei,
Como aqui vim parar?
Ao certo, nem eu o sei ,
Mas sinto-me a sufocar!
Coisas malditas que nos apertam,
Como torquezes nos nós dos dedos,
Que torturas a mais se suportam,
Ignaro resultado dos meus medos!
Oh eu sei, não sou soldado!
Sinto-me de tudo despojado,
Do amor, dos belos ideais,
Tudo é já demais!
Cansei-me, farto de ser,
Desta permanente vida errada!
Já nenhuma vontade de viver,
Só a de ser semente e enterrada!
Já não sei dizer, porque tudo o que digo, parecem estilhaços. Entram-te na carne, mas quem sofre sou eu. As palavras são o pretexto, para dizer que me amaste. E pelas mesmas palavras vais embora. Ficam as palavras que usamos. Gastaram-se. Podes enterrar tudo...
As palavras estão gastas...
Como o comboio que sai da estação.
Como esta pedra que se esboroa nos meu dedos.
Como a água que passou debaixo da ponte.
As palavras estão gastas!
Como a paz que cede,ao medo.
Como a flor que cresce na fenda do penedo.
Como o meu ar cansado...
As palavras estão gastas!
Nos lábios emudecidos.
Na mão que acena.
No lenço branco que se agita!
As palavras estão gastas!
No cinzel sem força.
No resto do teu nome.
Jazem neste coração calado.
Não sei se a vida conserva algum sentido. Para mim ela aconteceu de um acaso fortuito, nunca teve, nem terá sentido. A vida é apenas uma lágrima do Universo que morre de tédio. Mas ele permanece e somos nós que vamos morrendo, pouco a pouco, nos nossos sonhos, nas utopias e nos delírios. E no amor, que é apenas outra coisa tão sem sentido quanto a própria vida... O meu coração está partido e deixou escapar o que tinha dentro; estou vazio...
Coração de cacos partidos...
Dor em aumento exponencial.
Mundo do caos e da entropia.
Velhos caminhos percorridos,
Numa senda que é sempre de mal;
Onde o futuro é uma mera utopia!
Perdoai-me as palavras com que menti!
Os sonhos que embora, também meus,
Eram apenas o meu espelho, sonhos que vi.
Nem Deus, nem amor, nem antes, nem depois;
A morte é Toda-Poderosa, todos somos seus!
Perdoai-me ter-vos feito sonhar libertação!
Doi-me no peito este fraco coração...
Já não acredito em sonhos, nem na eternidade,
Sou sem esperança, nenhuma veleidade!
Já tiveste alguma vez a sensação de que estás a mais? Que estás sempre a mais? E que não devias estar? E foi tão aguda a sensação que desejaste partir e mesmo assim os teus pés não se mexeram. E pediste que te deixassem. E deixaram... Deixando esse peito angustiantemente vazio.
Oh sim, eu sei! A paixão prometida em cada rosa, trocada por dezenas de espinhos. Não sei se há música para isso, mas se houver, deve ser triste como o mar na maré vazia. Que te importa a rosa, se a agarras onde os espinhos estão e apertas com força e aprendeste a gostar dessa dor, que te lembra o seu perfume? Sabes... És doido. Apenas doido. Ou então não existes. (Era melhor.)
O caminho da Rosa
Sigo com pés de Cristo,
Este caminho da rosa;
Em vermelho e dor,
Acreditando no amor.
Entre o futuro e o mal,
Apenas cristalino sal,
Que cai como orvalho,
Nas pétalas onde falho.
Cambaleio na fragrância,
Qual ébrio sem paciência.
Àlcool de paixão rubra,
Que até ao chão me curva.
Caminho com os pés do Cristo,
Sobre as roseiras inteiras.
Tornei-me nisto, desisto!
Já não acredito em nada.