PÁSSARO À CHUVA


Para onde vão todos os pássaros quando chove? Para que recanto secreto do mundo se recolhem? Em que árvore de frondosa e densa folhagem buscam abrigo? Por voar, penso que sou pássaro...Mas desconheço o lugar onde se abrigam... E tu? Também és pássaro à procura de abrigo? Ou o frio tolheu-te e já perdeste a vontade de voar? Se não queres mais voar, para que precisas das asas?



Sou um pássaro à chuva tocada a vento
Cabisbaixo espero que passe este tempo
Encontrar uma nesga uma aberta
Que esta vida é um sufoco que aperta!

Está frio porque é inverno ao que parece
Mas esquecem que todos os anos é assim
E aos poucos o fruto da alegria fenece
Nesta chuva que me magoa só a mim

Pássaro quieto que não pode voar
Sonhos todos idos no vento frio
Vontade primaveril de cantar
Esgar de saudade, com que sorrio

Deixa-me ficar mudo e quieto
Até a tempestade passar
Deixa que o coração irrequieto
Desaprenda de palpitar

No meio do bando passo por vez
Desânimo que o passar do tempo fez
E não importa já se faz frio e chove
Porque ao meu voar, já nada o move!


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Girar


Dizem que esta roda onde giramos feito loucos, a tentar encontrar-lhe sentido, é o círculo da vida. Mas deve ser um círculo inacabado, porque no fim não recomeça. Ou então sou eu que tonto de girar, me esqueci das vezes que já findei e recomecei. Não importa. As coisas colossais acabam sempre por vencer a nossa vontade...



Há um cansaço
Madraço
Em meus braços
Laços
Que já não prendem
Mãos vazias segurando nada
Coisas que se subentendem
Nesta vida tão danada
Queria uma coisa linda
Sempre bem-vinda
Alguma alegria
Em cada dia
Uma canção
Ou uma dança
Desabrochar de paixão
Ou uma esperança
Mas tudo o que me sobra
É uma inacabada obra
Este cansaço que me dobra
Até me vergar
À vontade das coisas colossais
Que fazem girar o mundo
Até no fundo,
Eu não girar mais…



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Quando parte...






Não sei se era para ser assim, que o amor sempre acabasse numa partida, mesmo quando nenhum dos amantes quer partir. Não sei se isso é resultado de o Universo ter sido construído sobre alguma matriz sádica, perversa. Não sei se o amor é a bóia que nos mantém à tona no naufrágio existencial. Sinceramente não sei nada, excepto uma única coisa: Dói quando parte...




Já fui em tempos idos,
Mais do que sou agora.
Sonhos perdidos,
Nesta demora,
Passar do tempo,
Num desalento!
Desabafo para não sufocar;
Pobre de mim por amar!
Quisera eu ser capaz,
De alcançar a paz,
De um amor de verdade,
Para alcançar a felicidade!
Quisera eu ser forte,
Aturar tortura em refinada arte,
Mas o amor é como a morte,
Dói tanto quando parte…





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Ausência


Às vezes todos os caminhos, todas as escadas para o cimo ou os amparos, têm um sabor a sal... Um imenso mar salgado, que é sempre o teu destino. Onde amargas e tens frio, ou onde te afogas! Porquê o deslumbramento do horizonte há-de ter esse maléfico feitiço? Já não sei, já não quero saber... Queria apenas arrancar esta craca do meu peito, que o enche de uma saudade que dói.



Há os lugares cheios de ti
Ausência que me leva ao sufoco
Perfume teu que não esqueci
Saudade que me põe louco

Diz que não foste embora
E que é hoje e agora
Que o milagre vai acontecer
E o que devia tem de ser

Que o Universo se verga
E finalmente enxerga
A força deste amor
Que não merece dor

E não muda nada…
No jardim, a flor fenece,
Oportunidade uma vez dada
Dor que fica e não se esquece


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Niilismo





Às vezes os pés pesam-te como chumbo e queres ficar onde estás, não ir para nenhum lugar? E depois visitam-te as obrigações quotidianas, as responsabilidades que fomos acumulando com os anos? Uma espécie de bagagem, feita de memórias. Para alguns a medida do seu sucesso, para outros a medida da sua estagnação, dos sonhos que ficaram onde bate a rebentação, ou na espuma das ondas... Como diz o imortal Freddy Mercury, nessa imortal canção dos QUEEN, The Show Must Go On!


Quero lá saber
Tudo tem de morrer
Ou será que não?
Será eterna a paixão?
Areia que nos escapa nos dedos
Vento que nos despenteia o cabelo
E sim através de todos os medos
O amor - oh! o amor! - Ainda é belo!

Nestes ocasos quotidianos
Que alimentam o mar de enganos
Prosseguimos fingindo
E um dia tudo é findo
E não fingimos mais
Coisas tais
Que apagam o sentido
Que alguma vez tenha tido

A pantomina deve continuar
O truque é passar os genes adiante
Não importa nem amar
Basta ser amante
E haver um acidente
No mundo nova gente
O plano não é elaborado
É um destino, espécie de fado

Estou cansado
Pés que arrasto
Somos só passado
Vacas ruminantes
Em algum verde pasto
Passando por seres pensantes
Acabamos no mesmo talho
E às vezes fico sem resposta
À velha pergunta que me é posta:
-- Afinal o que é que eu valho?



Que as fortes músicas possam compensar o fraco poema.
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Chama


Onde andas que alguém precise chamar por ti? Onde te perdeste, que o céu azul tenha de te descobrir? E no entanto às vezes, andamos escondidos dos outros, porque temos medo do que somos. Coisas estranhas que se constroem, como castelos de nuvens que se desfazem no vento. Não sei quem és, mas se às vezes andaste escondido, devemos ter estado no mesmo lugar...

Devo passar por estes lugares desolados,
Velhos recantos que deviam ser apagados.
Lugares de mágoa e desencanto, onde caio.
Asa derrubada de um velho gaio

E já não sei nem lembro se fui,
Ou o que fui em tempos.
Caí, desmoronei e ruí,
Ao sabor dos ventos!

Visto estas vestes,
Tristeza e frustração,
São as minhas pestes,
A velha maldição!

E não aprendo do passado,
Angustia que me traz enredado,
Nas malhas do tempo ido,
E no fim acabo rendido.

Semblante esmorecido,
Não sei bem o que sou.
Talvez esteja adormecido!
Beija-me, chama-me, que eu vou…



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Desassossego



Já te sentiste vítima de ti próprio? Algo te inquieta e desassossega até à irritação e te leva à palavra errada, à conclusão errada, a um comportamento em que te procuras ferir, o mais próximo que se chega do suicídio. O que é isso? Donde vem? Porque surge? Sinal de frustração, de uma profunda que nasce na alma? A mesma dor que nos faz nascer? A culpa é dele, desse amor completamente alucinado...


No desassossego do que resta por dizer
Inquietude que se deita a crescer
Não sei o que se passa na tua ausência
Não tem muito de ciência
Nada de racional
Mas sinto-me mal
Uma angustia que não sei lidar
Sinto uma enorme saudade
Sinto fugir de mim a felicidade
Eu que apenas te queria amar!


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Cristal



Será que a expressão de que os diamantes são os melhores amigos da mulher, vem da ideia de que o amor pode cristalizar? Isto é, a materialização do amor podem ser os diamantes? Deve ser por isso que os apaixonados oferecem jóias às suas amadas, talvez tentem concretizar, materializar o amor num objecto. E tem vantagens...

Haverá entre os rios uma pedra
Diferente das demais que vês?
Encontro entre o bruto e a beleza,
Sem ter quem a fez,
Agarra a luz que medra,
Em brilho forte que atinge o olhar!
Será sorte, do sítio certo para estar?
Ou foi antes ela que te procurou,
E o brilho foi a voz com que te chamou,
Na esperança que a fosses agarrar?
Deslumbra-te na sua beleza,
Valiosa tem de ser, é uma certeza!
Não a deixes fugir,
Se ela sorrir
Agarra-a que tua,
Vai adiante!
E se não tens diamante,
Oferece-lhe a Lua!



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Não vires a mesa




Voluntariamente preso. Indefeso. Só. Já te sentiste assim? Quando o teu amor parte e te deixa nu. Em que tudo o que és, o que pensas que és, sofre na pergunta: Quem sou? E não sentes nenhuma redenção, nenhum Deus para te salvar? E se antes sofrias na presença, agora sofres na ausência. E se dantes eras optimista e positivo, agora o que sentes que és? Alguém no cais? O barco partiu...




Não vires a mesa, como se fosse o fim,
Como se não houvesse nenhuma solução!
Deixa-te ficar, fá-lo por ti, fá-lo por mim.
Escuta meu amor, o teu e o meu coração.

Há para nós uma luz acima, que faz crescer,
E umas raízes que nos prendem neste chão.
Mas sem ti, para que importa mais viver?
Por favor, se fores não vás sem mim, não!

Como as lágrimas são os oceanos salgados.
E barcos ligam margens, portos e cidades.
Sou marinheiro triste, de olhos molhados,
Ainda nem foste e já estou com saudades!

Adorava libertar-te, deixar-te voar!
Mas já não posso, sou eu aprisionado,
Nesta gaiola dourada, ouvir-te a cantar.
Mesmo preso, quero ficar a teu lado!


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O Moinho


Sentiste alguma vez que és apenas um grão? Um entre muitos e que não fazes realmente muita diferença? És mais um na roda do moinho que é a vida. E o teu destino é igual aos outros, seres também moído. Não importa para quê ou o porquê, neste moinho velho, que roda e roda, na vela que gira e volta a girar. Não é preciso sentido, apenas que gire...



Nascemos do prazer e da dor
É isso mesmo o amor
Crescemos em sabedoria
No passar de cada dia
Ilusão que demora a passar
Até que no fim
Quase ao chegar
Descobrimos que não é assim...

Descobrimos que a vida
É sómente um longo desmame
Quando está de partida
Não há quem se chame
A doce mãe ausente
O pai que partiu e deixou saudade
E agora se sente
Que a vida é só uma vaidade

Uma caminhada sem sentido
Inglório esforço de chegar
E ficou o oferecido
Esse lugar
O paraíso num abraço
O lugar que chamas casa
O abrigo sob a tua asa
A quimera prometida
Do amor ardente
Sempre perdida
Sempre ausente

Solitário caminho
Cinzenta chegada
Pobre moinho
Que não mói mais nada


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